sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

MEDO DE AMAR DE NOVO – POST DE ANO NOVO 2017

MEDO DE AMAR DE NOVO – POST DE ANO NOVO 2017

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O medo de amar de novo possui múltiplas facetas. Neste post busco refletir sobre três facetas em especial. O conceito de amor distorcido, construído na infância, gerando um medo de amar; o medo de amar como consequência de uma vivência amorosa muito dolorosa; e o medo de amar pelo medo da perda da individualidade, na perspectiva do autor Flávio Gikovate.

Nós nascemos em uma família que traz em sua história transgeracional, um conceito de amor que foi sendo construído nas relações afetivas entre seus membros, de forma inconsciente. Este conceito é muitas vezes distorcido, pois as formas de vincular nem sempre são positivas, podendo ser extremamente negativas e até mesmo violentas.

Quando os vínculos relacionais familiares são violentos (em todos os aspectos da violência: psicológica, física e sexual), a criança pode construir uma desconfiança básica. Ela entende que não pode confiar em ninguém porque quando confiou na capacidade dos pais de cuidar, amar e proteger, foi frustrada duramente, sendo abandonada, negligenciada ou violentada.

Se não podemos confiar em nossos próprios pais, que são nossos primeiros objetos de amor, como poderemos confiar no “mundo lá fora”? Dessa forma, a criança constrói um bloqueio na capacidade de entrega nas relações, pois tem que aprender, a duras penas, a se proteger sozinha.

Se o amor está ligado a abandono, negligência ou violência e estas machucam e trazem sofrimentos, então o amor se torna temido, pois quem ama abandona ou agride.

O indivíduo que tem essa crença como premissa em sua vida, terá muita dificuldade de amar novamente. A entrega e a confiança ficaram extremamente comprometidas.

Assim, como os padrões familiares são entendidos como normais para tal indivíduo, ele nem sempre consegue questionar sua crença no amor distorcido. Ele faz uma generalização inconsciente de que toda possibilidade amorosa virá conjuntamente com seu lado negativo. Sendo assim, como defesa, melhor fugir desse amor temido.

Duas reações de fuga extremas são identificadas nesse padrão:

1. Os viciados em amar – que são pessoas extremamente carentes e dependentes, não conseguem ficar sozinhas, e acabam sempre entrando em relacionamentos falidos e têm que ficar correndo atrás do outro, mendigando amor;  e

2. Os evitativos – que são pessoas que não vinculam emocionalmente com o outro, podendo ficar isoladas ou se relacionarem superficialmente com muitos.

O medo do amor não impedirá que essas pessoas tenham relacionamentos ao longo da vida. Apesar dos padrões acima serem polos opostos e também de parecer que a pessoa que ama demais está envolvida, mas em ambos os casos, o sentimento de entrega na relação é que está comprometido.

Com isso o indivíduo poderá fazer de suas relações um inferno – possessividade, ciúmes doentios, tentativa de controle, altas expectativas, distanciamento excessivo, etc. – para comprovar que não pode confiar em ninguém e perpetuar sua dificuldade na entrega.

Além disso, temos que considerar que partindo da crença num conceito de amor negativo, os indivíduos podem atrair relações amorosas que confirmem sua crença, pois inconscientemente são levados a atrair o que é conhecido. Chamamos isso na psicoterapia de “profecia que se auto cumpre”, que é quando atraímos o que mais tememos, pois a crença é muito forte dentro de nós.


Pensando no segundo aspecto proposto para este post, o medo de amar por causa de traumas de relacionamentos anteriores, digamos que o indivíduo tenha tido um conceito de amor razoável, mas que por algum outro motivo inconsciente tenha atraído uma pessoa de difícil trato, ou que a própria relação tenha evoluído para um caminho complicado. Quando a pessoa se sente aprisionada nessa relação e tem dificuldade para sair dela, ou acredita que precisa tentar tudo até esgotar seus recursos, o sofrimento vai se prolongando ao longo da vida a dois.

Esses casos onde a relação foi muito conflituosa, também podem promover no indivíduo um medo de amar de novo. Um trauma ou vários traumas sucessivos foram imprimindo no indivíduo a crença de que a relação amorosa significa problema, aprisionamento e sofrimento.

A crença mais profunda pode ser a de que o amor é imprevisivelmente louco, e o indivíduo extremamente frágil e indefeso, gerando o medo de ficar preso nessa loucura outra vez. Aí como defesa, o indivíduo escolhe se proteger relacionando superficialmente ou não relacionando, de certa forma se isolando ou boicotando as possibilidades relacionais que aparecem.

A verdadeira defesa está no autoconhecimento, para que o indivíduo esteja preparado para fazer uma escolha mais assertiva. Entender que escolhemos o que é conhecido, e analisar nas nossas origens, o que queremos ou não queremos repetir, aprender a escolher com essa consciência é um dos passos para uma verdadeira escolha amorosa.

Geralmente as escolhas são inconscientes e estão ligadas à paixão, o que é de certa forma arriscado, pois o apaixonar-se é uma sublime loucura que vai ao encontro do conceito de amor conhecido, além de ser a perfeita projeção do príncipe/princesa encantados.  Se o seu conceito de amor não fosse distorcido, até que não seria tão complicado. O problema é que apaixonamos pela nossa doença e dessa forma, acabamos por nem sempre escolher o que realmente é melhor.

Outra forma de defesa mais adulta seria o aprendizado do limite claro e assertivo. Quando o indivíduo consegue falar não para um relacionamento ruim, ou para as atitudes inadequadas do parceiro ou até para si mesmo, define para si e para o outro aquilo que aceita ou não. Dessa forma, se torna mais capaz de se proteger.

Talvez, se o indivíduo conseguisse amadurecer no sentido de acreditar em si mesmo, na sua capacidade de escolher, de saber seu limite na vida, ele tivesse menos medo de amar de novo, pois confiaria no seu poder de deliberar sobre sua própria vida.


O terceiro aspecto proposto para discussão foi o medo do amor – depois ampliado como parte de um processo mais complexo que é o medo da felicidade – que segundo Gikovate em seu livro “Uma nova visão do amor”, corresponde ao medo de perder a própria identidade e individualidade, em decorrência da fusão romântica intensa.

Essa dilema entre o amor e a individualidade é muito presente na nossa sociedade que valoriza muito o individualismo. Viver o amor é conotado como perda da liberdade e como consequência as pessoas perderam a capacidade de negociar, chegar num meio termo ou até mesmo ceder.

Num vídeo do professor historiador Leandro Karnal, ele fala que a maturidade emocional requer o aprendizado de que toda escolha implica em perdas. Escolher viver um relacionamento, gera restrição em alguns aspectos da vida individual, uma vez que é necessário incluir o parceiro nas decisões, e escolher ficar só, em alguns momentos fará falta a companhia de alguém pra dividir a vida ou as outras coisas boas que um relacionamento pode oferecer.

Nesse caso, o medo de amar está ligado a uma imaturidade do indivíduo em fazer suas escolhas e arcar com as consequências. É uma tendência da atualidade que pessoas queiram ter tudo, amor e liberdade, mas sem desenvolver internamente os aspectos relacionais e individuais para lidar com a escolha que fez.

Isso tudo somado lógica capitalista do descartável, torna-se mais fácil jogar fora o que deu defeito ou estragou. Relacionar requer aprendizados de negociação, flexibilidade, enfrentamento, limite, comunicação, o que dá muito trabalho. Descartar é mais fácil. E possui por trás uma fantasia da possibilidade de se achar um produto melhor na próxima prateleira relacional.

O medo da felicidade para Gikovate, diz respeito a uma sensação de medo que aparece mediante um momento de felicidade, que prevê uma tragédia logo após a felicidade. Voltamos então ao início do nosso post, quando citamos o conceito de amor/felicidade que possuímos: se a crença é que a felicidade está seguida de uma tragédia, precisamos ficar em estado de alerta para não sofrer. Assim segue a profecia que se auto cumpre, quando boicotamos a possibilidade de viver o amor de forma plena.


Estimado leitor, para o ano de 2017, desejo que você consiga compreender e curar internamente o seu medo de amar de novo, e possa fazer escolhas amorosas mais conscientes e viver de fato uma experiência de amor nutridora.


Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte
Instagran: @solteirosecasais


Referência da Figura:
1. foto extraída do google imagens


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