segunda-feira, 21 de novembro de 2016

SER SANTA versus SER PUTA - A SEPARAÇÃO DO FEMININO

SER SANTA versus SER PUTA

A SEPARAÇÃO DO FEMININO


Apesar de todos os avanços após a revolução sexual da década de 1960 (antes já haviam movimentos nesse sentido, como a Reforma Sexual iniciada em 1919*), homens e mulheres chegam na minha clínica ainda com profundas limitações na sua vivência da sexualidade.

A liberdade e a permissão social estão longe de significar que as famílias de fato tenham conseguido educar seus filhos para uma vivência sexual mais livre. Há que se considerar a influência das religiões e suas proibições, que marcam a liberdade sexual de uma forma negativa, carregando sua vivência de emoções negativas como a culpa, a vergonha, e enchendo nossas psiques de mitos.

Dentro desse imaginário coletivo construído historicamente, o grande fantasma para os homens é a homossexualidade e para as mulheres é tornarem-se putas. Esse fantasma feminino (não argumentarei sobre o masculino nesse texto) é decorrente de uma construção ideológica do Patriarcado e da concepção de propriedade da sociedade burguesa. Quando surge a ideia de propriedade e de deixá-la para seus descendentes, também surge a necessidade de uma mulher fiel, que daria a certeza de que os filhos seriam legítimos. A partir desses interesses, discursos de gênero foram delimitando o papel de homens e mulheres, e criando proibições e punições para quem saísse padrão.

Nesse contexto, identificamos a separação/cisão do feminino. A mulher de valor para essa sociedade é a santa, fiel, dedicada à família, subserviente ao desejo do marido, onde a sexualidade tem fins procriativos e não está ligada ao prazer feminino.

A outra mulher, a puta, tem permissão para viver o prazer sexual fora do casamento, e é procurada pelos homens, inclusive os casados, para viver a sexualidade de forma mais livre. Mas a esta mulher não é dado o valor familiar. Não é considerada confiável, pois pode gerar descendentes de outros homens, já que sua sexualidade é livre.

Vários discursos de saber, médicos, religiosos, políticos e econômicos, foram reforçando essa cisão feminina ao longo das décadas e séculos. Portanto, ainda hoje carregamos um peso histórico dos papéis que nos foram delimitados, apesar de todas as conquistas do Movimento Feminista.

A mulher cindida pode viver um estado de angústia inespecífico, uma vez que não tem permissão para expressar-se livremente na vida, tendo que controlar sua parte rejeitada, com fins de ser aceita socialmente. Como não tem consciência dessa separação do feminino, pode adoecer gravemente, inclusive deprimindo.

Geralmente, a parte mais negada pela mulher é a puta, e com ela toda complexidade da sexualidade e do prazer. Muitas mulheres não são ativas na busca do seu prazer individual (masturbação) desde jovens, antes mesmo de terem um relacionamento, e, portanto, quando em parceria, não sabem expressar seu desejo na cama, uma vez que não conhecem seu próprio corpo.

Quando a parte negada é a santa, a mulher desenvolve uma dificuldade de vincular de forma afetiva e amorosa com os parceiros, tendo permissão de viver a sexualidade livremente somente quando não têm vínculo. É muito comum estas mulheres “brocharem” quando amam. No filme Ninfomaníaca, de Lars von Trier, com o único parceiro que a personagem vincula, não consegue sentir prazer sexual.

Estimada leitora, qual parte de si mesma você pode estar rejeitando?

Em busca dessa compreensão, precisamos avaliar, na nossa história familiar, quais foram os mitos sobre a sexualidade que fomos construindo. Qual conotação a sexualidade tinha para nossas mães, tias e avós? Quais os ditos populares eram mencionados e reforçados no dia a dia? Como as mulheres tratavam o próprio corpo? Como as mulheres viviam as parcerias afetivas? O prazer era permitido ou rejeitado?

Aprendemos a ser mulher com nossas mães, tias e avós e é lá que poderemos compreender as distorções construídas sobre o feminino. Vale muito a pena refazer esse percurso histórico pessoal.

A integração do feminino é um processo longo. Venho trabalhando nessa construção há anos na minha terapia pessoal. Ter consciência do feminino na minha história de origem facilitou para que eu tivesse mais escolha sobre qual mulher eu quero ser, e vivesse menos inconscientemente o feminino que era o padrão original.

Integrar é aceitar, dar direito a existência e amar ambas as partes, a santa e a puta dentro de nós.  A terapia pode ser necessária para ajudar as mulheres nessa busca. Também existem vários trabalhos de grupo sobre o feminino, que vão ampliar a feminilidade além da dualidade santa-puta, assim como livros diversos sobre o assunto (conferir a página de indicação de livros do blog).


Queridos leitores, homens e mulheres, como foi a construção da ideia do feminino nas suas histórias de origem? Deixe sua experiência registrada no espaço para comentários abaixo!



* Magnus Hirschfeld, médico judeu e homossexual, fundou em 1919 em Berlim o Instituto de Ciência Sexual e organizou o Primeiro Congresso Internacional para a Reforma Sexual. No segundo congresso, em 1928, em Copenhage, foi eleito presidente honorário da recém-fundada Liga Mundial para a Reforma Sexual, juntamente com Havelock Ellis. (FRY, Peter, e MacRAE, Edward. O que é homossexualidade? São Paulo: Abril Cultural Brasiliense, 1985. Coleção primeiros passos. p. 88)

  
Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte
Instagran: @solteirosecasais


Referência da Figura:
1. foto extraída do google imagens


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