quinta-feira, 15 de setembro de 2016

TIRANIA INTERNA versus RECONHECER O PRÓPRIO VALOR

TIRANIA INTERNA versus

RECONHECER O PRÓPRIO VALOR



Na prática clínica, na vida familiar, entre amigos e comigo mesma, tenho percebido o quanto somos exigentes e tiranos de nós mesmos. Nunca somos bons o suficiente, sempre temos que melhorar cada vez mais e fazer mais coisas para sermos amados pelo outro.

Vejamos algumas dinâmicas que favorecem a construção da nossa tirania interna.

Ela pode ser um reflexo da nossa criança interior ferida. Quando crianças, nossas expectativas de amor frustradas se transformam em culpa, ou seja, entendemos que não conseguimos o amor que gostaríamos por causa de termos algum defeito, algum problema que afasta, enraivece ou amedronta o outro. Sendo a culpa algo nosso, passamos a nos cobrar e exigir demasiadamente melhorias fantasiosas, a ser uma pessoa que não somos. Mas como o outro não corresponde o amor idealizado que sonhamos, continuamos na falta e a nos exigir mais. Assim, o pequeno/pequena tirano interno toma nossas vidas e nossos relacionamentos, afastando o amor que tanto desejamos viver.

A tirania também pode ser uma repetição de padrões familiares. Alguns filhos podem se identificar com pais muito exigentes e cobradores. Esses filhos desde cedo passam a se esforçar ao máximo para conseguir se adequar às expectativas familiares. Esse estilo de pais nem sempre reconhece e valoriza a conquista, mas enfoca os erros e o que precisa melhorar, enxergando sempre o que falta. Crescendo num ambiente assim, podemos internalizar que não somos bons o suficiente e que precisamos fazer sempre mais.

Uma terceira dinâmica criadora de tiranos internos acontece em famílias onde os filhos se sentem muito desamparados. Nessas famílias os pais não conseguem oferecer a segurança material e emocional para que seus filhos cresçam confiantes em si e na vida. Os filhos “amadurecem” rápido, na verdade se tornam velhos emocionalmente, e tentam controlar a própria realidade para não sofrer. Muitas vezes sobem na hierarquia e se tornam pais dos pais, tentando corrigi-los e ensiná-los a serem melhores. É uma contrarreação ao desamparo.  Ao viver num contexto assim, podemos ficar muito rígidos e tiranos conosco para dar conta do tamanho peso de ser adultos fora do tempo e de cuidar da própria família sem perder o controle de uma situação que já é sentida como caótica.

Com uma ou mais de uma dessas dinâmicas internalizadas - que não esgotam todas as possibilidades - podemos nos sentir sempre em débito, pois nada do que façamos irá conquistar o amor do outro, ou fazer o outro nos reconhecer ou nos fazer sentir seguros internamente.

O ponto em comum dessas dinâmicas é que buscamos algo fora de nós mesmos: amor, reconhecimento e segurança. Ao buscar esses elementos fora, ficamos a mercê do outro, dependentes e carentes. Se não recebemos o que desejamos, ficamos frustrados e despejamos nossa raiva nos nossos parceiros e demais relacionamentos.

É necessário fazer um giro de referência, ou seja, deixar de buscar fora para encontrar dentro. Amor, reconhecimento e segurança são possíveis de serem construídos internamente e somente quando conseguimos realizar essa façanha, é que a nossa tirania interna diminui ou se esvai.

Amar – gostar de, e respeitar a nós mesmos como somos, independente dos defeitos que possuímos e das melhorias que queremos implementar. Aceitar o que já somos e conseguimos construir, sem cobrar o que ainda não alcançamos.

Reconhecer – valorizar nossos esforços mesmo quando eles não dão  o resultado desejado (um livro metafórico sobre o assunto: “O Pote Vazio”). Enxergar o nosso valor, que é de graça, sem precisarmos fazer algo mirabolante para sermos valiosos.

Segurança – acreditar no próprio potencial, na própria capacidade de aprender e de batalhar pelos desejos e sonhos. Ter fé que a vida está nos oferecendo as experiências que precisamos para nosso aprendizado e que na medida que vamos buscando coerência e consistência os retornos e resultados virão como consequência de nosso esforço e investimento em nós mesmos.

Nossa dependência do outro muitas vezes nos faz infelizes e miseráveis mendigos de amor. A tirania interior é uma consequência de um profundo sentimento de inadequação e de uma tentativa de encaixarmos num formato idealizado por nós mesmos e pela nossa fantasia sobre o que o outro deseja em nós. A maior liberdade é a permissão de sermos nós mesmos e a permissão de não sermos amados pelo outro.

Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte
Instagran: @solteirosecasais


Referência da Figura:
1. foto extraída do site: https://morguefile.com/search/morguefile/1/anger/pop


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2 comentários:

  1. Quantas questões complexas a serem refletidas estão expostas neste texto... Amei!!! Temos que travar uma luta diária com nossos monstrinhos que nos atrapalham na construção do amor próprio e satisfação!!!

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    1. Que bom que você gostou Verônica!
      Isso mesmo! essa luta interna vai levar a vida inteira! e seria bom se pudéssemos fazer essa luta com alegria e amor!
      Agradeço seu comentário!
      Um abraço
      Adriana

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