terça-feira, 23 de agosto de 2016

O CAPITALISMO DAS RELAÇÕES

O CAPITALISMO DAS RELAÇÕES

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O capitalismo é o sistema econômico vigente da nossa sociedade. Não fazemos ideia do quanto a sua lógica de funcionamento nos afeta, produzindo certas formas de relacionar e de comportar na vida amorosa.

A cultura consumista está intimamente ligada ao crescimento do capitalismo, sendo seu pilar de motivação ao consumo desenfreado e consequentemente ao lucro empresarial.

Para ampliar essa perspectiva consumista, somada ao avanço tecnológico da nossa era, foi necessário desenvolver uma obsolescência dos produtos, que culminou numa lógica do descartável. Para se consumir mais, são produzidos bens de pouca durabilidade e menor qualidade, assim como são ofertados, muito rapidamente, produtos que prometem oferecer mais recursos do que os anteriores (mesmo que a diferença seja muito pequena), como exemplos os celulares.

Segundo Zygmunt Bauman, em seu livro “Amor Líquido”, a cultura consumista valoriza o produto pronto para uso imediato (imediatismo da realização do desejo), o prazer e a satisfação imediatos decorrentes desse consumo (prazer passageiro, fugaz), e o alcance de resultados sem esforços prolongados, com a garantia de devolução do seu dinheiro, caso não haja a satisfação imediata.

Partindo desses princípios, podemos correlacionar vários pontos com os relacionamentos na atualidade:

1)   Imediatismo – buscamos nas relações uma satisfação imediata. O outro muitas vezes é percebido apenas como objeto de utilização e não como parceria para uma construção. Passamos ao sexo numa rapidez enorme, às vezes sem um mínimo de construção de intimidade. Em seguida sentimos um vazio, correlato da falta de intimidade. Novas buscas deverão ser empreendidas para nova satisfação imediata.

2)   Resultados sem Esforço – queremos que as relações deem certo naturalmente, sem fazermos esforço algum. Investimos tempo e dinheiro em muitas outras atividades da vida, mas não fazemos o mesmo investimento nas conversas, nas negociações, na busca de compreensão do parceiro, etc. Não conseguimos suportar o desgaste relacional, as frustrações e o demais sentimentos negativos decorrentes do enfrentamento e negociação das diferenças.

3)   Descartabilidade – Quando não conseguimos o resultado desejado sem esforço, simplesmente descartamos o “produto usado” que não serve mais. Não tentamos mais consertar a relação, simplesmente saímos dela e buscamos uma nova, com a promessa da satisfação imediata.

4)   Superficialidade – consequentemente, as relações acabam desenvolvendo um nível de intimidade muito superficial e não conseguimos aprofundar no conhecimento dos sentimentos mais íntimos do parceiro, nem nos entregar ou investir verdadeiramente na relação.

Assim, infelizmente mercantilizamos as relações. Nas palavras de Bauman “A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor, e resultado sem esforço” (Bauman, p. 22).

O amor pensado em termos mercantilistas, também tem uma particularidade de contabilidade. Débitos e créditos vão sendo registrados num livro de contas imaginário, e serão cobrados em seguida. A cobrança e a disputa de poder são características dessa forma de relacionar. Há que conseguir lucro, mesmo mediante o prejuízo do parceiro. O amor como doação desinteressada fica comprometido.

Muitas pessoas se adaptaram a nova perspectiva sócio-econômica dos relacionamentos. Vivem muitos breves romances, sem desejar algo mais. Mas muitas pessoas reclamam da dificuldade de construir um relacionamento, se angustiando e sentindo falta de algo mais profundo e duradouro.

Compreender essas forças dos sistemas mais amplos onde vivemos, nos ajuda a ter consciência de como repetimos esses comportamentos capitalistas-relacionais em nosso cotidiano.

Ter senso crítico e reflexivo sobre si mesmo é uma possibilidade de nos alinharmos melhor com nossos desejos e de termos clareza de nossas buscas amorosas. Não é possível mudar a lógica capitalista externa como um todo, mas é possível nos esforçarmos para vivermos de forma coerente.

Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte
Instagran: @solteirosecasais


Referência da Figura:
1. foto extraída do site: http://morguefile.com/search/morguefile/12/money/pop


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