quinta-feira, 14 de julho de 2016

O PAPEL DA MENTIRA NOS RELACIONAMENTOS

O PAPEL DA MENTIRA NOS RELACIONAMENTOS

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Recentemente li o livro “O Jogo da Dissimulação” de Harriet Goldhor Lerner, onde a autora faz uma leitura sobre o fingimento, a falsidade e o engano no universo feminino. Também li um texto “Sincericídio”, no livro “Um Amor Depois do Outro”, no qual o autor Ivan Martins escreve sobre o quanto uma verdade, pensamento ou fantasia falada de forma inadequada, podem ser massacrantes para uma relação.

Ambos, livro e texto, me ajudaram a pensar este post. Não tenho a pretensão de fazer um estudo aprofundado, como Lerner fez, e assim indico o livro para os interessados. Mas gostaria, principalmente, de apresentar algumas reflexões sobre experiências da minha própria realidade e da realidade de clientes e amigos em geral.

Uma das experiências mais desconcertantes e sempre sujeitas a mentiras, é quando “damos o fora” em alguém que não gostamos. Falar a pura verdade pode ser extremamente ofensivo, como por exemplo: você tem mau hálito, ou você é um chato de galocha, ou eu não gostei do seu beijo e sexo, ou você é muito imaturo pra mim. Não gostar de uma pessoa por qualquer motivo é um direito de todos nós, mas daí expor seus pensamentos para o outro de forma impulsiva pode se tornar falta de educação ou bom senso.

Assim, sempre “inventamos alguma mentira”, ou “falamos a verdade” de uma forma mais sutil, passando o recado sobre a nossa falta de interesse pelo outro: eu não me identifiquei com você, ou eu percebi que meu sentimento por você é apenas amizade, ou eu não estou pronta para um relacionamento neste momento, etc. Algumas pessoas simplesmente somem, não aparecem nunca mais, e assim dizem de seu não interesse, sem verbalizar, evitando o difícil enfrentamento.

Quando encontramos uma pessoa que vale a pena relacionar, é preciso fazer um esforço para falar abertamente dos nossos desejos e interesses. Nós humanos, especialmente mulheres, fomos educadas pela família e pela cultura para dissimular, fingir uma coisa pela outra, para fazer jogos emocionais com os homens, a fim de conquistá-los ou prendê-los.

Um jogo em desuso, mas muito comum na cultura Patriarcal, com uma força ainda poderosa no imaginário geral, é o jogo do homem que quer sexo e da mulher que segura sua vontade, fala que não quer porque é moça decente que não transa fácil assim. Este jogo envolve papéis culturais para o homem e para a mulher. O homem tem que querer fazer sexo com qualquer mulher senão sua masculinidade será questionada. A mulher, para não ser puta e ser considerada para um relacionamento, tem que segurar seu desejo.

Como a mulher vem conquistando vários espaços no trabalho, nas relações e na sexualidade, a partir das lutas feministas contemporâneas datadas a partir de meados da década de 1960, especialmente o comportamento sexual se modifica em direção a uma maior liberdade de vivência. Percebo que essa mudança favorece a escolha afetiva uma vez que uma maior experimentação fornece mais dados para se escolher um parceiro compatível. Por outro lado, uma maior liberdade sexual traz também uma tendência a superficialização das relações, especialmente porque dentro de uma estrutura de pensamento social ainda patriarcal e machista, essa liberdade pode ser associada a não possibilidade de confiança e consequentemente a insegurança e o comprometimento nas construções de vínculo.

Pensando nisso, homens e mulheres devem dissimular seus verdadeiros interesses. E para as pessoas no geral, conversar abertamente sobre o desejo sexual ou sobre o interesse em intimidade relacional, é uma construção que está em aberto, mas caminha de forma bem lenta.

Este ano, eu esqueci completamente a data de aniversário do meu pai. No dia seguinte minha mãe de criação (irmã do meu pai) me perguntou de eu tinha dado os parabéns pra ele e eu contei que tinha esquecido e que ligaria pedindo desculpas e falando do esquecimento. Ela claramente me sugeriu uma fala que ocultaria a verdade, para amenizar a situação. Quando eu percebi o jogo de dissimulação, eu escolhi contar a verdade, buscando exercitar essa coerência.

Esse meu exemplo familiar, mesmo sabendo que as intenções de minha mãe eram boas, mostra muito claramente como a dissimulação vai sendo construída na vida das mulheres de forma muito arraigada, como se fosse natural. Nossas avós, mães, tias, irmãs e amigas vão passando essa postura que é reforçada e retroalimentada de geração a geração.

Sendo assim, a mentira, segundo Lerner, não deve ser vista apenas como um traço de personalidade, mas deve ser pensada em contexto, uma vez que ela é como uma dança relacional que acontece entre nós e em nosso meio.

Pensando nessa ideia de contextualizar, é muito interessante avaliarmos como e quando escolhemos mentir ou contar a verdade.

Muitas vezes a mentira é uma tentativa fantasiosa de proteção do outro, que visto como frágil, não é capaz de ouvir o que tenho a dizer ou suportar a dor que eu posso lhe causar. Nestes casos projetamos no outro a nossa própria fragilidade e nossa própria dificuldade de encarar e enfrentar o parceiro.

O medo de perder é um dos sentimentos que nos faz mais mentir nos relacionamentos. É também baseado em fantasias de como o outro pensa e gostaria que fôssemos e agíssemos. Está muito fundamentado na ideia de que “eu não sou bom o suficiente”, e que se não atendê-lo em todas suas necessidades, correrei o risco de perdê-lo.

Se nossa autoestima não é saudável e não acreditamos em nós mesmos, nem no nosso valor, tendemos a criar uma máscara, que de acordo com nossa fantasia somada as expectativas externas, seja mais aceitável socialmente. Enganamos a nós e ao outro.

De fato é difícil definir quando falar ou não falar a verdade. Mas o problema nem sempre é falar, mas sim o como se fala.

Denunciar a verdade mais íntima do outro, num momento de briga ou discussão, de uma forma agressiva e ofensiva é umas das piores formas de falar a verdade. É o que o Ivan Martins chama de Sincericídio, uma sinceridade que assassina o outro, pois usa do conhecimento da sua intimidade como uma arma de guerra.

Por outro lado, manter segredo, especialmente quando a informação escondida é emocionalmente vital para os relacionamentos, é profundamente tóxico e pode ter consequências dramáticas para seus membros, como por exemplo os segredos de traição.


Vemos-nos assim, constantemente, diante do desafio entre ocultar, mentir e falar a verdade. A escolha sobre o que fazer deve nos levar a uma reflexão sobre o que é mais coerente, honesto e adequado para nós mesmos e para nossas relações. Sem fórmulas prontas.

Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte
Instagran: @solteirosecasais


Referência da Figura:
1. foto extraída do site: http://morguefile.com/search/morguefile/7/masks/pop


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2 comentários:

  1. Ola Dra Adriana Freitas.Obrigado por suas orientacoes .Valeu!.

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    1. Agradeço seu comentário Osirlei!
      Abraço
      Adriana

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