segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

DESAPEGO – REFLEXÕES SOBRE APEGO E DESAPEGO

DESAPEGO

REFLEXÕES SOBRE APEGO E DESAPEGO

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Esta semana, conversando com um amigo que estava de mudança pra outro estado, fiquei pensando sobre a questão proposta no título. Na minha visão externa, ele seria uma pessoa muito desapegada para conseguir fazer essa mudança, pois foi por vontade própria, sem emprego fixo certo, e não tinha problema algum que justificasse sua ida, apenas seu desejo. Deixou pra trás amigos e clientes, sem lamentações e com alguma saudade.

Mas acredito que a questão seja um pouco mais complexa. O apego e o desapego não são apenas características intrínsecas da personalidade de um indivíduo. Precisam também ser contextualizados no tempo e no espaço uma vez que certas experiências demandarão uma ou outra postura, independentemente do desejo do indivíduo.

Talvez possamos falar em experiências de apego e de desapego, e possamos refletir sobre qual experiência precisamos viver e aprender no momento presente.

Profissionalmente, no meu caso por exemplo, como meu trabalho de terapeuta precisa de um processo a longo prazo pra construir uma clientela maior, eu posso me considerar muito apegada ao lugar que cheguei hoje aqui em BH. Por outro lado, já comecei um processo de desligamento do meu trabalho em Divinópolis, minha cidade de origem onde ainda trabalho, e meu desapego está relacionado ao cansaço de ter que viajar com frequência desde 2007. Mas como meu amigo, mudar para outra cidade ou estado seria muito difícil pra mim também por uma questão de sobrevivência. Consegui me sustentar em BH nos primeiros anos porque tinha o trabalho de Divinópolis, mas ir para outro lugar, trabalhando apenas como terapeuta, e sozinha, geraria um problema de sobrevivência.

Dessa forma precisamos considerar que a experiência de apego pode estar muito ligada a uma questão de Sobrevivência, física e emocional. Alguns casamentos falidos se sustentam ao longo do tempo muitas vezes em função da sobrevivência financeira, quando um dos cônjuges não trabalha e depende do trabalho e dinheiro do outro. Assim também acontece com outras relações que se sustentam porque os indivíduos são extremamente dependentes e não conseguem viver sozinhos. Preferem ficar em relações abusivas, agressivas e violentas na medida em que ficam completamente apavorados com a solidão.

Outra experiência de apego se refere ao Material. Muitas pessoas investem toda sua energia em possuir bens de consumo duráveis e não duráveis. Por trás desse tipo de apego podemos encontrar questões como a necessidade de status, sendo esta uma busca por conseguir o reconhecimento alheio e por ser valorizado pela quantidade ou qualidade das coisas que possui. Também existe o apego material pela necessidade de segurança através do acúmulo de bens, que também esconde o medo de passar falta e a insegurança interna. Há também a experiência dos acumuladores compulsivos, que está mais ligada a problemas emocionais do passado os quais são “anestesiados” com a referida compulsão, e o possível esvaziamento do acumulado só aconteceria se houvesse a possibilidade de encarar o buraco emocional.

O apego a uma Fantasia Idealizada é algo que todos nós vivemos, como a idealização de pai e mãe, de parceiro, de filhos e família. Sonhamos com um tipo de vínculo amoroso e projetamos isso nos nossos relacionamentos. No entanto, nosso desejo não condiz com a realidade humana e passamos uma vida tentando fazer as pessoas próximas se encaixarem aos nossos ideais.

Por falar em família, um outro apego muito repetitivo refere-se aos Padrões da família de origem, que representam uma lealdade ao que aprendemos, mesmo que muitas vezes esse aprendizado vá contra nossos próprios desejos atuais. Tal apego nos aprisiona de forma inconsciente, na maioria das vezes, o que dificulta muito nossa percepção consciente e possibilidade de mudança.

Quando possuímos um conceito de amor muito ruim, quando o amor em nossas famílias estava relacionado a distância afetiva, abandono, agressão ou violência, podemos desenvolver um apego ao Sofrimento, que pode nos levar a buscar situações problemáticas, de forma compulsiva.

O apego por Amor talvez seja um dos mais saudáveis, desde que os indivíduos não utilizem da ideia de amor relacionada a dependência, justificando todas as tentativas loucas de aprisionamento do outro. Este apego está ligado a uma interdependência onde o afeto transita numa via de mão dupla numa relação de troca. Há confiança, entrega e segurança, sem necessidade de prender ou aprisionar o outro.

A experiência do desapego, como a do meu amigo citado no início, soa muitas vezes como uma maior capacidade de um indivíduo para a Liberdade. Mas nem sempre isso é real.  Muitas vezes o desapegado se esconde atrás de uma dificuldade ou incapacidade para vincular-se com outras pessoas e de se entregar nas relações afetivas de amor e de amizade. Dessa forma, uma pessoa apegada pode estar mais livre pra amar e se entregar do que outra desapegada.

A pessoa que parece mais desapegada a alguma questão específica, com certeza será apegada a outra. Por exemplo um homem que não quer se comprometer seriamente num relacionamento porque quer aproveitar a vida, pode estar apegado a uma ideia de liberdade que existe em ser solteiro, ou a uma ideia don-juanesca de conquista, ou ainda numa necessidade de afirmação da masculinidade via sexo.

Portanto, não existe uma pessoa completamente desapegada. Ela só parecerá mais desapegada se o seu desapego for em algum tema culturalmente ou socialmente fora do padrão. Seus verdadeiros apegos ficarão ocultos uma vez que não são evidentes nem conscientes pra ela nem ao olhar do outro.

Diante de todas essas questões, o desapego ou o apego por si só, não são bons nem ruins. Eles precisam ser contextualizados na história e no contexto de vida atual do indivíduo. Enquanto algumas pessoas precisam aprender a experiência de desapego, outras precisarão experimentar o apegar-se a alguém ou algo, como possibilidade de crescimento na vida.

É preciso ter coragem para apegar-se ou desapegar-se, é preciso ter coragem de correr o risco. Qual é a sua necessidade, estimado leitor? Compartilhe conosco deixando seu comentário no espaço abaixo!


Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte
Instagran: @solteirosecasais

Referência da Figura
1 - retirada do google imagens

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