segunda-feira, 25 de maio de 2015

1+1 = 1+1 - A CONTROVERSA INDIVIDUALIDADE NOS RELACIONAMENTOS

1+1 = 1+1

A CONTROVERSA INDIVIDUALIDADE NOS RELACIONAMENTOS

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Frequentemente na prática clínica com casais, procuro trabalhar a importância de se criar um espaço para cada parceiro ter seu momento de indivíduo sozinho.

Essa ideia na nossa cultura social e religiosa é muito controversa, pois em geral, os casais fazem muito esforço para serem um só. Já dizia o discurso religioso do casamento que dois viram um, “um só corpo e uma só carne”.

Recentemente, lendo o livro “Uma nova visão do amor” do Flávio Gikovate, clareou pra mim mais um pouco dessa dificuldade de se viver a individualidade dentro de um relacionamento. Ele argumenta que as nossas relações amorosas, são o reflexo da nossa busca pela fusão perfeita da simbiose mãe-filho no útero e nos primeiros momentos fora dele, no aconchego materno. É como se, além de não elaborarmos a perda dessa separação com a mãe, criássemos nosso conceito de amor baseado nessa fusão, e tentássemos alcançá-la novamente, projetando essa busca na vida a dois.

E se o amor é entendido como fusão, esperamos que nossos parceiros correspondam essa expectativa, também se fusionando a nós, o que compromete a vivência da individualidade e da liberdade, pois o que não é fusão será entendido como desamor.

Assim, buscamos relações onde 1+1=1. O problema dessa busca é que, apesar dela parecer ser possível no momento da paixão, ela não se sustenta por si só. Cada pessoa tem diversas funções na vida e não consegue estar 100% disponível para o parceiro o tempo todo. As falhas na simbiose perfeita aparecerão naturalmente quando alguém não puder corresponder alguma das expectativas do outro.

Gikovate também aponta que somos inteiros que se sentem metade. Esse sentimento de ser metade não é passível de ser preenchido pelo externo, exatamente porque o outro é falho. Somente cada indivíduo é capaz de buscar preencher o próprio vazio interno, na medida em que se responsabiliza por descobrir suas necessidades físicas, emocionais, intelectuais e espirituais, e quando passa a cuidar delas de forma atenciosa, amorosa e constante.

E apenas quando cada indivíduo consegue se sentir mais inteiro é que as relações podem se transformar em 1+1 = 1+1, modelo que considero mais saudável, havendo espaço para o indivíduo e para o casal.

Numa relação de dois inteiros, existem menos expectativas de suprimento fusional dos vazios emocionais. E por outro lado, existe mais disponibilidade de doação de um amor maduro para o outro.

Nesses casos, a individualidade não se torna uma ameaça para o outro, pois existe uma segurança interna de que cada um cuida de si, e o cuidado do outro vem como um acréscimo sadio e prazeroso. Não há uma dependência do cuidado do outro e se ele for embora haverá muita tristeza, mas não haverá esfacelamento do eu, desde que não haja mais fusão.

Ao contrário do que pensam os inseguros, a vivência da individualidade enriquece os relacionamentos, pois quando o outro pode ir “para o mundo” e viver novas experiências, ao voltar para o nosso lado ele traz toda riqueza que experimentou.

Lembrei-me do livrinho do Rubem Alves, “A menina e o pássaro encantado”. Quando a menina deixava seu pássaro livre para viajar o mundo, ele voltava com as penas multicores e lhe contava milhares de histórias fantásticas. Quando ela prendeu seu pássaro na gaiola, movida por sentimentos de ciúmes, insegurança e medo do abandono, ele foi ficando com cores escuras e sem vida.

Falando em sentimentos, Zuenir Ventura em seu livro “Inveja - Mal Secreto”, define o ciúme como sendo um desejo de exclusividade do objeto amado, um não desejo de dividi-lo com ninguém. É um sentimento que combina com meninas inseguras, com gaiolas e inviabiliza ainda mais a individualidade.

A não permissão para a vivência da individualidade nos relacionamentos reflete padrões infantilizados de vínculos com parceiros imaturos, inseguros e com um conceito de amor baseado na fusão.

A individualidade só deixará de ser uma ameaça na medida em que tivermos uma autoestima fortalecida, um amor próprio bem constituído e a liberdade de amar sem ser correspondido.

Você já evoluiu até este ponto, leitor? Ou ainda está buscando um amor de fusão? Deixe seu comentário no espaço abaixo!

Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte

Referência da Figura

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4 comentários:

  1. Penso e sinto que estamos cada vez mais caminhando para relacionamentos onde a individualidade propicia boas e intensas trocas entre os parceiros, pois há espaço para que ambos se desenvolvam nas suas potencialidades e cresçam juntos também. Para isso é necessário maturidade!

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    1. Verdade Dorita, é preciso crescer para viver a individualidade nos relacionamentos, pois se temos expectativas infantis, a individualidade é sentida como abandono.
      Obrigada por deixar seu comentário!
      Um abraço, Adriana

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  2. Bom acho que como tudo na vida...exige equilíbrio....ate que ponto essa individualidade é respeito ao espaço do outro...e ate que ponto passa a ser uma falta de empatia pelo outro em prol dos próprios interesses.

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    1. Olá Janaina
      com certeza! É necessário o equilíbrio. O problema é que na nossa sociedade há um desequilíbrio pendendo para a dependência (que não significa empatia) e não para a individualidade. O que costumo encontrar na prática clínica é uma falta de espaço para a individualidade e esta sendo conotada de forma negativa. Acredito que além da empatia também é necessário construir segurança e confiança nos relacionamentos para que o espaço para a individualidade não seja uma ameaça.
      Agradeço seu comentário!
      Abraço
      Adriana

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