segunda-feira, 6 de abril de 2015

HOMEM, O SEXO FRÁGIL?

HOMEM, 

O SEXO FRÁGIL?



Começo o texto de hoje usando o título de um dos livros do Flávio Gikovate, apesar de não ter intenção de falar do trabalho dele, mas sim de iniciar algumas discussões sobre a fragilidade da masculinidade nos dias de hoje, e sobre correspondentes atitudes dos homens na tentativa de afirmá-la.

A construção da masculinidade assim como da feminilidade é um processo familiar, social e cultural, que se transforma ao longo do tempo. Os papéis de homens e mulheres não são naturais e restritos a determinantes biológicos, mas vão se estabelecendo e se perpetuando de acordo com interesses da sociedade mais ampla.

Dessa forma, a masculinidade e a feminilidade não são as mesmas de um século atrás, nem de cinco ou dez séculos atrás. Hoje olhamos para a Revolução Feminista dos anos 1960-70 e percebemos que muitos dos direitos pleiteados pelo movimento já se estabeleceram e vêm se fortalecendo nas relações de gênero e nos papéis sociais que exercemos.

Segundo estudos do autor João Silvério Tevisan, em seu livro “Seis balas num buraco só– a crise do masculino”, o patriarcado que reafirmava as diferenças de gênero, enfatizando o poder masculino e a fragilidade do feminino, o fazia já numa perspectiva de um masculino fragilizado, em comparação constante com o feminino, e que precisou construir inúmeras estratégias de subjugação, que foram socialmente sendo legitimadas, para alcançar uma pseudo-segurança e para esconder o fantasma de uma inferioridade latente, sem falar do fantasma da homossexualidade.

Se nos tempos que o patriarcado era o padrão vigente e dominante das relações – apesar de hoje ainda ser muito forte – já havia raízes de uma fragilidade, imaginem como está esse masculino hoje após tantas conquistas e avanços das mulheres, dos homossexuais, seus papéis sociais e direitos humanos?

Juntamente com esses avanços, o poder feminino intra-familiar – espaço já destinado a mulher – que já era grande aumentou ainda mais, especialmente com a valorização dos casamentos por amor e a facilitação do divórcio. Muitas famílias acabaram se transformando em monoparentais (um pai/mãe apenas), sendo a mulher quem mais fica com os filhos após as separações. Nesses contextos, houve também um aumento significativo na ausência desses pais e uma perda significativa de suas funções na vida dos filhos.

Isto em termos de masculinidade representa uma certa tragédia, na medida em que os meninos são cada vez mais educados por mulheres (mães e professoras) e têm pouco, insuficiente ou insignificante contato educacional com homens, fazendo que a construção da masculinidade via modelo identificatório fique comprometida.

Na ausência de um modelo personalizado e consistente mais próximo, e até mesmo pela busca de modelos externos na adolescência, os meninos passam a se identificar com os estereótipos masculinos mais reconhecidos socialmente.

Trevisan enfatiza algumas das principais formas de afirmação da masculinidade, as quais ele chama de “inflação fálica”: as competições sem limites, o machismo, a violência desenfreada, o culto explícito a musculatura avantajada ou body building e a sedução Don Juanesca.

O problema é que esses modelos de masculinidade são superficiais e não têm consistência para oferecer algo realmente relevante para o fortalecimento dos homens. Eles se transformam apenas em tapa buracos emocionais e soluções transitórias que no íntimo não resolvem seus sentimentos de inferioridade, aparentando apenas uma força que não é real. Quem precisa se afirmar demais é no fundo um grande inseguro.

Por outro lado, como a ferida emocional é grande demais, e os homens não foram educados para lidar com seus sentimentos, e pelo contrário dentro dessa perspectiva machista e distorcida de afirmação de masculinidade os homens não têm permissão para sentir, eles acabam criando diversas estratégias de fugas para não entrar sequer em contato com sua dor. As compulsões por álcool, drogas, sexo e trabalho são apenas algumas destas estratégias.

É bastante desconcertante pensar que nós mulheres e principalmente as mães, contribuímos para reforçar o machismo e a fragilidade dos homens, quando educamos nossos filhos homens ainda contaminadas pela raiva que temos dos homens de nossas vidas, ou quando também pela raiva perpetuamos discursos machistas generalizando os preconceitos contra os homens, ou quando desacreditamos da possibilidade e encontrarmos parceiros verdadeiramente bons e com um masculino saudável, aceitando e cuidando de homens frágeis, tornando-os nossos filhos.

A crise do masculino está instalada. Crise é sinônimo transição e de possibilidade de mudança. Soluções fáceis não existem. Será necessário uma verdadeira Revolução Masculinista? Digo verdadeira porque já li uma crítica, escrita por Lola Aronovich em seu blog “Escreva Lola Escreva”, sobre um movimento chamado Masculinismo que na verdade não pleiteia nenhum crescimento na condição dos homens e seus direitos, mas apenas se ressente e se coloca na posição de vítima do Movimento Feminista, reforçando assim valores machistas e retrógrados.

Precisamos começar essa revolução transformando primeiramente e internamente nossos preconceitos contra os homens. Os homens precisam rever sua função paterna, redefini-la e reconstruí-la, tornando-se modelos saudáveis para seus filhos. Os homens precisam parar de se anestesiar e encarar face a face seus demônios. Eles precisam fazer amizades íntimas com outros homens, desenvolvendo relações de confiança e afeto em grupos masculinos. É necessário crescer, deixando de ser um menino infantilizado e amedrontado.

Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte

Referência da Figura

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