domingo, 12 de outubro de 2014

NA SAÚDE E NA DOENÇA - É POSSÍVEL UMA RELAÇÃO SOBREVIVER A UMA DOENÇA GRAVE?

NA SAÚDE E NA DOENÇA

É POSSÍVEL UMA RELAÇÃO SOBREVIVER A UMA DOENÇA GRAVE?

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Esta semana fiquei doente, uma infecção da garganta muito forte que está custando a passar. Estar doente desorganizou minha vida bastante. Tive que desmarcar clientes alguns dias, minha cozinha e casa ficaram uma bagunça e sujeira porque tinha pouca energia para o serviço, na verdade queria passar mais tempo deitada por não conseguir fazer outra coisa.
Estando nesse estado, comecei a refletir sobre como os relacionamentos poderiam sobreviver a uma doença grave, tipo um câncer com tratamento pesado, uma doença renal crônica, um alzheimer ou até mesmo uma paraplegia ou tetraplegia, como exemplos de deficiências que mudam a vida de forma definitiva. O doente, como meu breve exemplo, pode perder grande parte da energia para realizar qualquer atividade da vida diária, podendo inclusive perder o desejo ou as funções sexuais, dependendo da gravidade do problema.
Só tenho alguns pensamentos para este tema, sem nenhuma resposta ou afirmação científica.
Apesar do discurso religioso do casamento incluir a ideia “na saúde e na doença”, o contrato inconsciente do casamento é feito apenas na saúde. Ninguém conta nem espera a doença. Talvez sim, por saber disso, que a religião já colocou essa cláusula em seu contrato, para impedir que os casados quebrem seus votos na primeira dificuldade que aparecer.
Ter um parceiro doente provisoriamente pode mudar alguns papéis executados pelo casal, apenas durante um curto tempo. Casais saudáveis se reorganizam rapidamente e prestam auxílio um ao outro nesses períodos. Casais doentes se sentirão ressentidos com a doença do parceiro e podem culpá-los, deixando-os mais sobrecarregados e sozinhos, ou podem até gostar, se foram viciados em cuidar como no caso dos codependentes.
Imaginem esta situação com a notícia de uma doença grave! A reorganização do casal pode prejudicar algumas funções. Um dos parceiros terá que fazer função paterna/materna em relação ao outro, e se isso perdura muito tempo, a função marital pode ficar bastante comprometida.
Se a função sexual fica prejudicada ou extinta, o parceiro saudável pode em algum momento recorrer a um amante, somente para sexo ou acabar se vinculando ao mesmo.
Se o casal já não era saudável, nesse período o casamento fica ainda pior. Sentimentos de abandono, de sobrecarga, de raiva podem dificultar ainda mais a passagem pela doença.
Do ponto de vista do parceiro doente, além dos próprios lutos que precisa elaborar a respeito de sua doença, também precisa encarar sentimentos como medo do abandono, impotência diante das tarefas, medo de não ser mais desejável e por consequência medo da traição, ou medo de se sentir um peso – como exemplo abaixo do filme -, dentre outros.
Um filme que mostra uma doente rejeitando ser cuidada é “Doce Novembro”, dirigido por Pat O’Connor, e estrelado por Keanu Reeves e Charlize Theron. No filme a personagem Sara é quem cuida dos homens durante todo um mês e não se permite envolver, pois não quer que descubram sua doença e muito menos que a vejam fragilizada, sintam pena dela e que se transforme num peso.

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No caso, para o parceiro codependente, a doença do outro pode ser um deleite inconsciente, um sentido de vida, um motivo para se sentir útil e amado e no filme a doença do personagem Nelson era seu vício pelo trabalho e sua falta de vida. Mas quando a doença está no próprio codependente, ele pode negá-la, escondê-la ou não aceitar ajuda pois não aprendeu a ser amado dessa forma.
Do ponto de vista do parceiro saudável, além da sobrecarga de tarefas que deverá assumir, precisará lidar com sentimentos de solidão, raiva por estar sobrecarregado ou também por se sentir abandonado, culpa por querer ter uma vida “normal” enquanto seu parceiro não consegue, culpa por desejar outras pessoas que não estejam em condições tão infantilizadas quanto o doente, medo de abandonar a relação e ser visto como a pessoa má da história, etc.
Há também aqueles parceiros que, por amor ou por prisão, buscam resgatar o outro doente mesmo quando ele já se perdeu, ficando presos naquela relação do passado, como é o caso do filme "O Diário de uma Paixão" dirigido por Nick Cassavetes, onde a personagem Allie está com alzheimer numa instituição e o personagem Duke, seu companheiro, tenta resgatar um pequeno lampejo de consciência da parceira perdida na doença, ao contar e recontar diariamente a história deles.

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Acho muito difícil, senão impossível, julgar o que é certo ou errado nessas situações, ou estabelecer parâmetros para o que é saudável ou doente. É saudável ou doente ficar com o outro até a morte só por pena? É saudável ou doente abandonar o outro que já não é aquele por quem eu me apaixonei? É saudável ou doente a traição nesses casos? Pode o amor sobreviver a doenças graves com todas as mudanças decorrentes na vida do casal?  Provavelmente muitos são os parceiros que ficam não pelos seus verdadeiros sentimentos, mas por medo de como serão vistos caso escolham sair da relação.
“Na saúde e na doença” é uma regra bastante romanceada que não consegue abarcar toda complexidade de sentimentos dos parceiros que passam pelas doenças graves.
Você leitor já passou por uma situação de doença grave num relacionamento? Como lidou com as mudanças na vida do casal? Deixe seus comentários no espaço abaixo!
 Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH

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Referências das Figuras
2 e 3 - Imagens retiradas do google imagens 
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4 comentários:

  1. Otimo texto! Estou passando por essa situação, cada dia me sinto numa condiçãode vida diferente. Acho que com o tempo saberei definir se sou coodependente ou não. Por enquanto acho que o amor está contribuindo muito para uma boa ralação.. não sei, mas me ajudou muito ter lido essa sua reflexão. Melhoras para você!

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    1. Obrigada por deixar seu comentário, mas que pena você não ter deixado seu nome, da próxima vez não se esqueça. Obrigada pelos desejos de melhora!
      Um abraço
      Adriana

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  2. Eu tenho esclerose múltipla e, como se isso não bastasse, tive câncer de mama também, tudo isso após me casar. Tenho 33 anos e estou casada faz 4 anos. Ele tem 56 anos e já é um homem mais maduro. Já tentei terminar nosso relacionamento várias vezes porque eu o amo muito e acho que ele seria mais feliz com outra pessoa, pois tenho um futuro duro pela frente com esclerose. Por enquanto ele se mantém ao meu lado, cuidando de mim em todos os minutos e aguentando a barra, que pra ele deve ser muito difícil. Se pelo menos eu não tivesse tanta insegurança e tanta depressão, eu poderia fazer-lo feliz por mais algum tempo. O que mais nos tem atrapalhado não são minhas doenças, mas sim minha tristeza...

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    1. Ola sra. misteriosa. Eu não costumo publicar comentários sem assinatura do nome, mas o seu comentário me tocou e resolvi publicá-lo para te responder. Sinto muito por seus adoecimentos físicos mas acho que sua principal necessidade de cura é emocional. Acho que vc deveria buscar um tratamento psicológico/ psiquiátrico/espiritual para encontrar um novo sentido de vida. Existem muitos trabalhos bons em psicoterapias e em terapias alternativas que podem ajudar na cura interna para que vc possa viver com sentido!
      Se precisar de indicação posso oferecer em BH. É só enviar uma msg in box na lateral do blog "Converse conosco".
      Paz e luz pra você,
      Adriana Freitas

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