sábado, 31 de maio de 2014

PERDA DO AMOR - LUTO DOS RELACIONAMENTOS AMOROSOS

PERDA DO AMOR

LUTO DOS RELACIONAMENTOS AMOROSOS

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Quem nunca sentiu uma profunda dor pela perda de uma paixão ou um amor?
Certamente em algum momento você já teve alguém por quem cultivou um forte sentimento, e a perda desse relacionamento te deixou arrasado. Especialmente quando é esse alguém quem decide ir embora das nossas vidas nos deixando com nosso sentimento ainda grande demais. Ou quando decidimos deixar um relacionamento por não aceitarmos suas condições mesmo quando ainda gostamos do parceiro. Ou perdemos o amado para a morte, no auge do nosso amor. Ou perdemos o amado para sua própria mãe/família que não quer deixá-lo crescer, e nem ele faz o esforço!
Qualquer que seja a forma da perda, podemos viver a dor e superá-la ou podemos entrar num processo de sofrimento sem fim, ficando presos em um luto patológico. Para todo luto e necessário um período razoável de tempo para sua elaboração e também para a recuperação emocional do indivíduo. Eu mesma  já gastei nove meses, num chororô danado, para me recuperar de um namoro do qual sai apaixonada, por não aceitar certas condições doentes que começaram a se estabelecer desde o início.
O que mais me impressiona é como as pessoas não respeitam seus processos de vivência do luto, buscando uma série de anestesias - remédios, álcool, drogas, comida, trabalho - ou caindo imediatamente em novos relacionamentos, propensas a repetir os mesmos erros não elaborados do relacionamento anterior.
Culturalmente vivemos numa época onde a indústria farmacêutica vende a fantasia de que sentimentos são doenças e devem ser medicalizados. Tristeza e mágoa viraram depressão, raiva se transformou em bipolaridade ou histeria, medo em pânico e assim vai uma lista enorme. Fugimos igual "o diabo foge da  cruz", de vivermos nossas tristezas, mágoas, raivas e ressentimentos, sendo os primeiros a buscar alguma forma de anestesia. Queremos solução imediata, servindo qualquer coisa pra aplacar ou desviar a atenção da nossa dor.
Entretanto, precisamos passar pelo processo de luto para nos recuperarmos, curarmos  nossas feridas e sairmos inteiros para os novos relacionamentos. Quando não nos damos esse tempo, chegaremos ainda partidos nas outras relações, muitas vezes esperando que o outro cuide de nós. Assim já começa um padrão relacional cuidador-cuidado, que pode dar muito certo se ambos gostarem cada um de seu papel ou pode  dar muito errado se o ferido sarar, não quiser mais ser cuidado, o cuidador não aceitar sair do seu papel, e o ex-ferido ir embora.
Segundo Kübler-Ross, em seu livro* "Sobre a morte e o morrer" as fases do luto são: negação e isolamento, mecanismos de defesas diante a notícia e do choque da perda; raiva da vida, do abandono ou de Deus; barganha, uma tentativa de negociar com o outro ou com Deus sobre a perda; depressão - viver profundamente os sentimentos negativos da perda; e aceitação, redefinir a perda da melhor maneira possível e seguir em frente. Tais fases não acontecem todas, nem de forma cronológica, nem linear, mas na elaboração saudável do luto os sentimentos dessas fases vão dinamicamente sendo vivenciados.
luto, perda, perda amor, perda relacionamento, dor, anestesia, medicar, fuga, fases lutoO luto se torna patológico quando há fixação e paralização num tipo de sentimento e emoção, de onde o indivíduo não consegue sair. É comum vermos enlutados relacionais se autopunirem por sentimentos de culpa, perseguirem os ex-parceiros, armarem planos vingança (raiva direcionada para o exterior) gastando horas do seu tempo em planejamentos macabros, ficarem deprimidos ao extremo e engolidos pela dor, irem para as baladas ou para orgias fingindo e negando seus sentimentos, ou fazendo inúmeras promessas e consultas com entidades esotéricas que prometem trazer o amor de volta (veja o vídeo de humor do porta dos fundos). Geralmente essas loucuras feitas tem como pano de fundo uma autoestima completamente destruída, uma falta de amor e de valor próprio.
Lembro-me do filme "Um beijo roubado", dirigido por Wong Kar-Wai e estrelado por Norah Jones, em que sua personagem, Elizabeth acaba de ser traída e deixada pelo parceiro, começa a se confessar com o personagem de Jude Law, Jeremy em seu charmoso café, se envolve com ele, mas escolhe sair pelo país em busca de si mesma, encontrando em ressonância, uma série de pessoas também enlutadas de diversas formas.
Considero a viagem da personagem como uma metáfora da “viagem” necessária na busca por uma resolução emocional do luto. Apesar de inicialmente existir esse desejo de fuga da atual realidade dolorosa, o processo emocional do enlutado progride quando o indivíduo decide encarar a si mesmo, suas dificuldades, suas implicações e problemas no relacionamento anterior, faz uma revisão dos padrões adequados e inadequados e decide com quais pretende ficar ou descartar, se propõe cuidar de si primeiro, das suas feridas, curá-las e voltar a ficar inteiro para construir novas relações.
Há que se considerar que certos indivíduos vão vivendo seus lutos dentro das relações, e quando acontece o fim espontâneo, escolhido ou alguma traição que os motiva a sair da relação inicial, eles já estão com seus lutos em processos mais avançados, o que lhes permite entrar em novas relações com maior rapidez e sem prejuízos da perspectiva das elaborações do luto. Mas isso é exceção. No geral, a maioria das pessoas nega seu luto, foge e passa por cima do mesmo. Existe até culturalmente aquela fala que “só um novo amor cura o outro”.
luto, perda, perda amor, perda relacionamento, dor, anestesia, medicar, fuga, fases lutoUm processo de luto será mais difícil de ser elaborado, dependendo do tipo de perda (morte, separação, divórcio, etc.), da função que o parceiro tinha na vida do outro e do momento do ciclo de vida do relacionamento e dos indivíduos. Pergunte-se: O que o parceiro supria na minha vida? Como o parceiro cuidava de mim? De quais aspectos do relacionamento eu sinto mais falta? A perda aconteceu no momento de paixão? Ou próximo do casamento? Ou próximo da chegada dos filhos? Ou com a perda de filhos ou outros parentes importantes? Ou em momentos de crises financeiras ou pessoais?
Podemos considerar então, que as três principais tarefas emocionais na elaboração das perdas relacionais são:
1.   Viver e permitir-se viver a tristeza, a dor e todas as outras emoções decorrentes da perda, respeitando seu tempo e buscando passar pelo período de luto com acolhimento da dor ao invés de demasiadas fugas ou anestesias;
2.   Revisar a relação anterior ponderando as coisas positivas que gostaria de repetir nos próximos relacionamentos e as negativas que gostaria de mudar. Em outras palavras, significa conhecer a si mesmo, seu desejo relacional e amoroso que direcionará suas novas buscas;
3.   Cuidar de si mesmo e das próprias necessidades de forma adulta, para que a busca afetiva não seja apenas um depositário das carências afetivas originais ou recentes.

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Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica


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4 comentários:

  1. Excelente e pertinente reflexão para uma situação tão comum nos dias de hoje. Espero e desejo que você continue neste caminho de criação e partilha que tem me ajudado tanto. Gde abraço, sds...

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    1. Oi Waleska, obrigada pelo incentivo! Fico feliz que os textos estejam contribuindo para seu crescimento. Um abraço, Adriana

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  2. Muito bom texto! Parabéns Adriana!

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    1. Oi Erica, obrigada, fico feliz que tenha gostado do texto.
      Abraços
      Adriana

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