domingo, 11 de maio de 2014

A FALSA HARMONIA DOS CASAIS COMPLEMENTARES - DOIS LADOS DA MESMA MOEDA

A FALSA HARMONIA DOS CASAIS COMPLEMENTARES

DOIS LADOS DA MESMA MOEDA

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A complementaridade, assim como a simetria - abordada no post anterior - é outro padrão comunicacional, onde a diferença é a característica principal das relações estabelecidas. Diferença esta que é marcada por polaridades, cada parceiro  assumindo um pólo na relação. Possui dinâmicas como: dominador-dominado; opressor-oprimido; autoritário-submisso, pai-filha; mãe-filho; responsável-irresponsável;  dependente-codependente, etc.
A doença desse padrão de comunicação é a complementaridade rígida, que é determinada pela vivência de papéis relacionais cristalizados no seu pólo de referência principal. Relembrando, a saúde comunicacional seria quando o casal transita em ambos padrões, complementares e simétricos, dinamicamente, de acordo com a necessidade do contexto.
Geralmente o padrão complementar é corroborado pela cultura de gênero, religiosa e familiar, na medida em que estas estabelecem papéis rígidos e bem delimitados para homens e mulheres. E assim podemos nos identificar e nos manter leais a este tipo de funcionamento consciente e inconscientemente.
Nas relações complementares cada parceiro assume seu papel porque sua própria crença, construída em sua história de origem, lhe permite. Digo isto porque muitas vezes parecerá que o oprimido, o dominado, o codependente são vítimas, mas eles são corresponsáveis por ficarem nessa posição na relação. Podem possuir um comprometimento na autoestima, não acreditarem em si mesmos, ou serem leais aos papéis transmitidos pela família, religião e cultura, mas "ninguém entra num papel por acaso".
Como essas pessoas entram nessas relações a partir de suas próprias crenças, elas geralmente são cordatas com seus papéis, gerando uma harmonia no casal. No entanto estou considerando esse equilíbrio como falso porque  existe sempre sacrifícios de uma ou ambas as partes, rigidez e falta de flexibilidade no funcionamento do casal e da família, o que dificulta uma vivência mais espontânea e livre nos relacionamentos.
relacionamentos, falsa harmonia, casais complementares, complementaridade rígida, morte simbólicaPode acontecer de uma dessas pessoas morrer na relação para a outra viver. Morrer uma  morte simbólica significa se anular, não ter sua opinião ou posicionamento como válidos, não ser ouvido tampouco considerado, e muitas vezes massacrado como nos casos de violência de gênero. Ou seja, nas relações complementares rígidas, a falsa harmonia só acontece porque alguém desiste de viver, aceitando esse lugar  do morto.
Isso não significa que não exista peso para o que ficou "vivo". Ser o algoz, o autoritário da relação é uma forma de mascarar a própria insegurança ou medo, e uma  necessidade de autoafirmação visando tamponar o sentimento que está por detrás.  Se ele precisa de alguém fraco para se mostrar forte, é porque não sente internamente seguro e confiante em si mesmo. Se relacionasse com alguém de fato forte, seria denunciado e sua máscara cairia instantaneamente. Por isso precisa e depende desse outro parceiro fragilizado no outro lado da moeda.
Dessa forma essa relação polarizada é extremamente dependente  apesar de um dos lados parecer tão independente. Ainda  que os posicionamentos de cada indivíduo sejam polarizados o eixo estrutural dos parceiros é de fato semelhante: insegurança, medo, baixa autoestima. Dois lados de uma mesma moeda.
Nesse padrão de comunicação, muito há que ser trabalhado em função do autovalor de cada indivíduo. As vezes acontece do parceiro morto acordar,  ou ressuscitar e entrar em disputa de poder com o outro, como  no filme "Guerra dos Roses", também referendado no post anterior, o que não resolve a doença dependente do casal, só mudando a  lógica comunicacional de complementar para simétrica.
Para que haja possibilidade de mudança na complementaridade rígida, o morto precisa querer viver e o dominador precisa estar cansado do seu falso poder. O morto precisa estar disposto a fazer os enfrentamentos dos seus medos e abrir mão da falsa segurança que o dominador lhe dá. O dominador precisa entrar em contato com sua própria fragilidade, a qual tenta esconder a qualquer custo e correr o risco de retirar suas próprias máscaras defensivas agressivas. Ambos parceiros precisam enfrentar suas defesas infantis e aprender a lidar de outra forma com suas carências originais. Começa com uma escolha individual.
Construir um padrão saudável de comunicação dá muito trabalho. Nada acontecerá magicamente, apesar de fantasias infantis dos parceiros. Você está disposto a fazer este investimento?

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Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH

Figuras


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2 comentários:

  1. Gostei muito do texto! Pego-me refletindo sobre a relação entre o "Movimento como reflexo da "vida"" e a "Estagnação como reflexo da "morte"".

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    1. Olá Rafael, muito obrigada por deixar seu comentário!
      Muito pertinente sua reflexão. Posso acrescentar apenas que certos movimentos, aqueles por ansiedade demasiada, podem não ser para a vida, e certas "estagnações" ou momentos sem movimento não significam morte, podendo refletir apenas momentos de paz ou tranquilidade após movimentos de mudança. Vida e morte dependem também de permissões ou não permissões internas, corroboradas pela história de todo um sistema familiar transgeracional.
      Um abraço, Adriana Freitas

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