sexta-feira, 2 de maio de 2014

BRIGAS DE CASAL - DISPUTA DE PODER EM CASAIS SIMÉTRICOS

BRIGAS DE CASAL
DISPUTA DE PODER EM CASAIS SIMÉTRICOS

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Na família tradicional não encontramos muito o padrão de disputa de poder nos casais, uma vez que os papéis de gênero são bem delimitados e a hierarquia familiar é claramente definida com o homem no topo e a mulher logo abaixo, tendo poder apenas no cuidado familiar e doméstico. Essa dinâmica tradicional pode ser definida como complementar (que abordarei no post seguinte).
Foi após o movimento feminista, quando as mulheres galgaram uma nova posição na sociedade e na família, que houve uma transformação na hierarquia familiar colocando o casal em uma localização hierárquica mais igualitária, simétrica. Dessa forma, as brigas por disputa de poder passaram a ser mais comuns nas relações amorosas da contemporaneidade.
Simetria (iguais, em uma mesma posição) e complementaridade (diferentes, em posições distintas) são padrões de comunicação das relações, que de acordo com Watzlawick (e col.) não são necessariamente bons ou ruins, normais ou anormais. Pelo contrário, uma dinâmica funcional nas relações deve alternar entre ambos padrões, de acordo com o contexto vivido. A tendência ao funcionamento em um polo só é que pode se transformar em graves patologias da comunicação: a escalação simétrica e a complementaridade rígida.
A competitividade é uma característica acentuada em relacionamentos simétricos. Os parceiros podem competir por coisas importantes ou por qualquer bobagem, mas a meta é sempre ter razão, um estar certo e o outro errado. Ganhar significa muito para esses indivíduos e eles tentarão ao máximo utilizar de todos recursos verbais e não verbais que possuem, podendo ser injustos, utilizando das fraquezas do outro, que conhecem muito bem, como armas da disputa.
Na escalação simétrica, doença deste tipo de comunicação, ambos competidores utilizam de ataques como defesas, entrando muitas vezes em jogos sujos de desqualificação do outro para se sentirem maiores. Nesses jogos sem fim vale tudo, recursos psicológicos, físicos (não abordarei aqui as complexas questões da violência doméstica e de gênero), reais e imaginários, podendo chegar a destruição de um ou ambos. Um exemplo que ajuda a visualizar esse padrão é o filme “Guerra dos Roses”, que após uma primeira fase complementar do casamento, os cônjuges entram numa escalada simétrica até a destruição da relação, da casa e de si mesmos.

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Imagem de uma das cenas do filme Guerra dos Roses
 Casais simétricos são geralmente muito raivosos e esta raiva pode ser a atualização de sentimentos inconscientes do passado, causados por questões de suas histórias de origem. Por exemplo, uma mulher que teve uma mãe muito submissa pode ter muita raiva dela e ter feito um pacto consigo mesma de nunca ficar igual a mãe, levando isso para o relacionamento em forma de jamais se submeter. Ela reagirá a qualquer sinal do que pareça submissão, levantando suas próprias defesas atacantes, disposta para a disputa de poder. Outro exemplo, um homem que teve um pai muito autoritário, pode fazer um pacto consigo mesmo de nunca mais deixar ninguém controlá-lo ou “aumentar a voz” para ele. Na relação entre iguais, ele reagirá emocionalmente ao menor indício do que pareça controle, agigantando suas próprias defesas também atacantes.
Dessa forma, por trás das homéricas brigas de casal, encontra-se a importante psicodinâmica individual de uma autoestima ferida ou diminuída, construída numa família de origem que não conseguiu suprir as necessidades infantis dos filhos. Como consequência, os parceiros projetam na relação amorosa, grandes expectativas de sarar ou pelo menos ocultar as feridas infantis. E quando há a frustração dessas expectativas, surge uma hostilidade diante do aparecimento dessas feridas, refletindo o próprio vazio emocional e a raiva dos pais que não pode ser admitida tampouco vivida. Assim o parceiro se torna o bode expiatório de todo mal resolvido original, pois ele não consegue suprir as necessidades infantis do companheiro “adulto”.
Outra possibilidade são os casais repetirem a dinâmica competitiva dos pais, ou como indivíduos ou como casal. Os modelos parentais são muito importantes como referências para os casais em formação. Se um dos parceiros viveu num ambiente onde as brigas e a competição eram comuns e normais entre pais ou pais e filhos, terá uma forte tendência a repetir esses padrões em suas relações de parceria.
Portanto, a disputa de poder dos casais deve ser avaliada a luz do passado e do presente, da família e da cultura.
Na busca de saída para a doença da simetria, além de fazerem o esforço de compreenderem essa origem da disputa de poder, os casais precisam ainda redefinir o conceito que têm de ganhar e perder. Na maioria das vezes o conceito de ganhar tem a ver com “ter razão”, ter a própria visão como sendo a mais válida, anulando a visão do outro. Em termos de subjetividade todas as visões são válidas pois cada pessoa terá sua própria versão do problema em questão, o que não significa que seja a verdade absoluta. O que o parceiro sente e pensa é completamente particular dele, e precisa ser considerado. Colocar-se no lugar do outro, enxergar seu sentimento e subjetividade e desistir da necessidade de ter razão, saindo da disputa ao invés de continuar nela pode ser “ganhar”, em termos de melhoria para si mesmo e para o relacionamento. Por isso a necessidade de reconceitualização.
A grande luta dos indivíduos que têm relações simétricas é pela busca de autoafirmação, numa reação emocional a criança interna ferida, mas infelizmente ainda num padrão que precisa da referência e massacre do outro. No fundo são pessoas inseguras que não aceitam a diferença do parceiro, e tentam matá-la grande parte do tempo, para que ele seja o que desejam.
Numa relação simétrica saudável há brigas construtivas, onde cada um escuta atentamente o ponto de vista do outro, não havendo necessidade de mudar a opinião do outro para valer sua própria. Os parceiros compreendem que podem ter pensamentos divergentes e ainda sim manterem a coerência da relação. Têm posições iguais na tomada de decisões do casal e da família, podendo cada um apresentar sua visão e ambos se esforçam para chegar a um acordo do que é melhor para o momento. Dividem as tarefas familiares e domésticas de acordo com suas próprias habilidades, sem sobrecarregar nenhuma das partes.
Segundo Scarf, uma boa briga termina com o entendimento acentuado da dificuldade do relacionamento e dos indivíduos, um compromisso negociado (não imposto) mutuamente onde ambos se comprometem com sua construção e manutenção, e um movimento real em direção da resolução da dificuldade, com responsabilização e companheirismo das duas partes.
Enfim, os parceiros conseguem se aceitar e validar mutuamente como são, tendo respeito um pelo outro em suas semelhanças e diferenças.
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Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH

Figuras
1 – http://casamento.culturamix.com/curiosidades/as-brigas-constantes-de-um-casal-fazem-bem-para-eles


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6 comentários:

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    1. Obrigada por deixar seu comentário Wilpsi! Um abraço, Adriana

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  2. Adriana, sempre leio os seus textos e os considero de grande valia no meu aprimoramento emocional. Paulo

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    1. Olá Paulo, um dos melhores retornos que eu posso receber é saber que meus textos são válidos para o crescimento emocional das pessoas. Fico grata em poder contribuir e por você acompanhar o blog! Um abraço, Adriana

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  3. Adriana, muito bom e esclarecedor seu texto. Ele me fez ver com clareza o que culminou com o término de meu relacionamento. Sempre brigávamos para saber quem tinha a razão. Mas, servirá como aprendizado para relações futuras. Obrigado! Vou acompanhar seu blog, sempre.

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    1. Obrigada por deixar seu comentário Marcio! Fico feliz que o texto tenha lhe provocado algumas reflexões e aprendizados. Quando nas relações brigamos pela razão, entramos numa disputa de poder, e dependendo de onde essa disputa chega, o relacionamento realmente fica insuportável. Por trás dessa briga costuma ter uma não aceitação da diferença do outro, o que é importantíssimo para que os relacionamentos sejam saudáveis. Tomara que você consiga trabalhar a si mesmo para as próximas relações.
      Um abraço, Adriana

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