sexta-feira, 18 de abril de 2014

SOLTEIRA, BALZAQUIANA, EM PAZ E FELIZ - CRISES E REDEFINIÇÕES VITAIS

SOLTEIRA, BALZAQUIANA, EM PAZ E FELIZ
CRISES E REDEFINIÇÕES VITAIS
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Tenho visto muitas mulheres balzaquianas solteiras entrando ou passando pela década dos 30-40 anos em completo desespero porque não têm namorado nem marido nem filhos. O relógio biológico começa a gritar que a fertilidade entrou em decadência e está próxima da mortalidade, e as mulheres agem como se estivessem mediante uma iminência enlouquecida de uma morte fantasiosa.
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Culturalmente, o papel materno para as mulheres é investido de muito valor, onde aprendemos e internalizamos desde pequenas em nossas famílias, cuidando das bonecas, todo o mito do amor materno. Consciente e inconscientemente somos educadas para cuidar dos outros e ainda não abrimos mão desse papel familiar. Portanto, colamos na nossa identidade feminina, a obrigatoriedade de ser esposa e mãe, sem muita ou nenhuma crítica.
Eu não fiquei imune a essa influência cultural reiterada pela minha família, especialmente até os trinta e poucos anos, quando uma crise me desmoronou.
Por volta dos 31 anos eu tive uma crise de sentido. Havia me apaixonado por um homem e não fui correspondida. Até então, o sentido da minha vida, meu sonho dourado, era casar e construir minha própria família, ter marido e filhos. Não sei por que essa situação específica mexeu tanto comigo, já que me apaixonei outras vezes, mas de repente me veio a tona todo um quesito de realidade: “e se o meu sonho não acontecer? E se eu nunca casar e nunca tiver filhos?”. Caí num vazio, num buraco sem fundo, numa dor existencial imensa. O meu sentido de vida caiu por terra e fiquei sem sentido nenhum, me questionando: “E agora? Por que e pelo que vale a pena viver?”.
relacionamentos, solteira, balzaquiana, paz, feliz, crises, redefinições vidaFoi com a ajuda do meu terapeuta – eu faço terapia há anos e acredito que um bom terapeuta investirá sempre em seu próprio processo terapêutico –  que comecei a repensar a ideia de “sentido de vida”. Inicialmente tentei redefini-lo focado no trabalho, mas nesse âmbito também não temos controle – assim como nos relacionamentos – e o trabalho poderia também não acontecer da forma como sonhava. Sentido de vida precisa ser algo exclusivamente individual, que só dependa de você. Cheguei então na conclusão que o sentido deveria perpassar pela busca de melhoria pessoal: o que eu não gostava em mim, defeitos e problemas, que queria mudar, e quais qualidades e habilidades eu gostaria de desenvolver que ainda não possuía, e o que gostaria de aprender na vida. O foco saiu do externo e passou para o interno e desde então, minha busca passou a ser por coerência, por sintonizar meu pensamento, sentimento e ação. De vez em quando repenso e refaço meus objetivos, baseados nessa busca de melhoria interna. Quanto mais me envolvo no processo de autodescoberta mais vou criando intimidade comigo mesma e descobrindo novos desafios de mudança.
Partindo desse novo foco, me tornei totalmente responsável pelas minhas necessidades, descobrindo o que é vida pra mim. Não sei se posso dizer que tenho a “sorte” de gostar de fazer muitas coisas, mas com certeza encontro prazer em várias atividades simples e sofisticadas da vida. Adoro música e sempre ouço em casa, vou a concertos e shows, amo cinema e teatro e sempre acho espaço na minha agenda para frequentá-los, além de prazeres como cultura, arte, gastronomia, receber amigos, sair com amigos, ir a feiras de diversos tipos, fazer compras de supermercado, passear em praças e em lugares de natureza, viajar e conhecer lugares novos, tomar um banho de chuva de vez em quando, ler, escrever, etc. Descobri que existe vida em qualquer lugar que haja prazer e procuro frequentemente cultivar meus prazeres, no dia a dia.
E agradeço porque construí uma vida digna de ser vivida e encontrei a felicidade no fortalecimento da busca de coerência. Vejam bem, não encontrei felicidade em nenhum parceiro, em nenhuma amizade em específico, em nenhum bem adquirido. Se depositarmos nossa expectativa de felicidade em algo externo, ela tão logo irá embora quando o for o “objeto” amado. Também não encontrei a felicidade ao final do caminho ou com alguma conquista alcançada. Ela simplesmente aconteceu durante o caminho. Passei a gostar mais de mim quando consegui agir de acordo com meus valores, sentimentos, desejos, pensamentos, e isso se chama integridade do self. O que não significa que não haja dor, tristeza, e angústia de vez em quando. Aprendi a me acolher nesses momentos e integrá-los como parte fundamental do meu crescimento.
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Quando aceitamos pessoas, relacionamentos e situações em nossas vidas que não desejamos ou estão em desacordo com nossos desejos e valores, só para não ficarmos sozinhos porque a carência está transbordando nosso psiquismo e nos afogando em amargura, torna-se impossível gostar de si mesmo. A felicidade não estará onde haja incoerência e a autoestima cairá num precipício pior do que o abismo onde já se encontrava.
Uma característica minha que sempre me ajudou e ainda ajuda bastante é a coragem. Coragem de mudar o rumo e o caminho da vida, ao descobrir que estou numa direção “errada” que não me promove crescimento. Algumas mudanças de rotas são radicais, mudanças de rodovias, e outras não, sendo apenas mudanças de trilhas. Mas é preciso ter coragem e ousadia para encarar tal empreitada. Lembro-me como se fosse hoje quando pedi demissão da faculdade que trabalhei de 2006 a 2009, porque descobri que o trabalho de orientação de monografia estava me deixando doente de ansiedade. Antes, eu achava que tinha que gostar desse trabalho pois tinha um bom status e um salário razoável. Foi libertador quando me dei conta que não “tinha que” nada. Ao sair, fiquei apenas com o trabalho autônomo como terapeuta, mas recuperar minha saúde mental não teve preço. Em pouco tempo a qualidade do meu trabalho melhorou, pois minha energia se renovou, e continuei crescendo profissionalmente.
relacionamentos, solteira, balzaquiana, paz, feliz, crises, redefinições vidaHoje ainda tenho o desejo de ter um relacionamento maduro, mas sem ansiedade nessa busca. Filhos, tenho questionado a possibilidade de não tê-los, mas sem certezas absolutas. A única certeza que tenho é que se for casar um dia, que seja com um homem que esteja disposto a investir numa relação de intimidade, e se um dia for ter filhos, quero tê-los com um homem que deseje muito ser pai, e que ainda quero viver muitas coisas antes da possibilidade de ser mãe, que é uma responsabilidade enorme, uma escolha que restringirá uma série de outros desejos que tenho na vida.

Ser solteira e balzaquiana pode ser maravilhoso ou odioso. E só será maravilhoso se repensarmos as imposições culturais e familiares sobre nossos papéis sociais e transformarmos aqueles que nos limitam. Eu já redefini os meus, e você?

Para quem ainda não assistiu, o filminho abaixo finaliza este post perfeitamente!
Psicoterapeuta Sistêmica em BH

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11 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigada Lia! Fico feliz que tenha gostado! Obrigada por deixar seu comentário! Abraços! Adriana

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  2. Muito bom o texto, como todos os outros que estão no seu blog.

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    1. Obrigada por deixar seu comentário Andréa! E agradeço também por acompanhar o blog! Seu retorno é muito importante! Abraços, Adriana

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  3. Adorei seu texto, Adriana. Achei muito sensível e autêntico. Você está de parabéns. Um beijo. Rosângela

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    1. Obrigada Rosângela, seu comentário aqueceu meu coração! Um forte abraço, Adriana

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  4. Parabens pela escrita extraordinaria e pela refinada escolha do video. Simplesmente adorei!!!!

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    1. Obrigada Jane! Fico feliz que tenha gostado do texto e o vídeo é realmente uma preciosidade. Um abraço, Adriana

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  5. Adriana, tudo bem? Estou retribuindo a gentil visita (papodehomem.com.br) e dizer que estou encantada com seu blog. Amei.
    Esse me tocou particularmente, estou com 31 anos, casada, sem filhos e estou num momento de minha vida muito prazeroso, e tudo o que me dá prazer também é muito simples, meus exercícios, meu trabalho com horas e investimentos bem determinados, minhas comidinhas, minhas caminhadas com músicas.
    Mesmo sabendo do impacto dos anos em minha fertilidade, eu nesse momento não quero filhos, e estou bem com essa decisão. Sinto liberdade. Sozinha.
    Já ouviu a música "Carne e osso" da Zélia Duncan? Diz muito sobre seu texto, sobre essa fase gostosa.
    Com certeza estarei por aqui mais vezes.
    Um abraço!

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  6. Ai!!! Não tinha assistido ao filminho! Simplesmente ameiii!!

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    1. Olá Débora! Fiquei muito feliz com sua visita aqui no blog! Obrigada por deixar seu comentário super positivo! É muito bacana quando olhamos para nossas vidas balzaquianas e chegamos a conclusão que estarmos de bem e em paz com nossas escolhas. E mesmo se não estivéssemos, poderíamos mudar o rumo para construir uma vida mais digna, não é mesmo?
      Adorei a música indicada, deixo aqui o link para quem se interessar: https://www.youtube.com/watch?v=MXki8pIOMH8.
      Um abraço, Adriana

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