domingo, 23 de março de 2014

O TEMPO E OS RELACIONAMENTOS

O TEMPO E OS RELACIONAMENTOS

COMPREENDENDO E SOLUCIONANDO PROBLEMAS DE TEMPO*


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Quem nunca reclamou de falta de tempo? É uma característica da contemporaneidade a sensação de não ter tempo para conseguir fazer tudo que se gostaria. Eu não me lembro dos meus avós reclamarem de falta de tempo. Talvez naquela época o tempo fosse vivido de outra maneira.
Alguns aspectos da contemporaneidade contribuem para a problemática do tempo: grandes cidades e longos trajetos para se deslocar até o trabalho, tecnologia e o tempo gasto com seu uso, carga horária de trabalho elevada necessária para a sobrevivência, o excesso de atividades e responsabilidades do indivíduo para consigo mesmo e para com seus sistemas de relação.
Diante de tantas demandas vitais, como os casais organizam ou deixam de organizar seu tempo para estarem juntos e se sentirem conectados? Como as questões de tempo afetam e prejudicam os relacionamentos? E como os casais podem solucionar os problemas de tempo? O que seria um tempo de qualidade dedicado ao relacionamento?
É muito comum os casais chegarem na terapia e estarem tão engolidos pelas atividades individuais, de trabalho e família, a ponto de não reservarem tempo para sequer conversarem e alimentarem a relação. Vamos refletir um pouco sobre essas atividades.

O tempo e o trabalho

tempo, relacionamentos, trabalho, tecnologia, divórcio, recasamento, saúde, doença, poder, dinheiroAs demandas de trabalho impactam o tempo dos relacionamentos de diversas maneiras. Passamos aproximadamente 1/3 (um terço) do nosso dia dedicado ao trabalho. E dependendo da necessidade ou do vício (workaholics), o tempo gasto será maior.  Além da excessiva carga horária, há também o tempo de deslocamento entre casa e trabalho, que em grandes cidades é bastante pior devido a grandes distâncias e ao tráfego cada vez mais cheio. Outro aspecto é quando o casal tem rotinas e horários de trabalho diferentes, restringindo o tempo de encontro, assim como alguns tipos de trabalho que incluem viagens para outras cidades, estados e países.
Dessa forma, o trabalho ou as atividades em torno do trabalho tomam uma grande quantidade de horas vitais dos indivíduos adultos. Se na média de 1/3 do dia vai para o trabalho e o outro 1/3 é gasto dormindo, apenas o outro 1/3 é o que resta para realizar todas as outras atividades: fazer um exercício físico, cuidar do casal, cuidar dos filhos, encontrar com amigos, descansar, fazer compras e cuidar da alimentação, estudar, ter lazer, etc. Se pararmos para pensar, um casal que tenha filhos e que cuide responsavelmente da família, faz mágica com o próprio tempo. E é muito fácil estrangular o tempo para o casal em função de todas essas atividades.


O tempo e a família

Neste tópico, a primeira questão a ser considerada é a diferença de gênero, onde ainda hoje, na grande maioria das vezes, é a mulher que assume a maior quantidade de responsabilidades com a família, casa e filhos mesmo quando ela trabalha. Sem contar que são elas as mais convocadas para cuidar dos familiares doentes, idosos ou hospitalizados. Assim, o homem acaba ficando mais livre pra fazer suas atividades individuais e a mulher mais sobrecarregada com suas atividades de cuidadora, o que afetará o tempo para o casal, incluindo sua qualidade, pois quando há o encontro, a mulher está cansada. Esta questão de gênero implica numa crença mútua compartilhada sobre os papéis de homem e mulher, ou seja, não há vítimas nessa história. Ambos compartilham as mesmas crenças, mesmo quando há reclamações.
Um outro aspecto, é sobre o tempo dedicado a família de origem. Se mesmo depois de formada a própria família o casal ainda permanece dependente dos pais, é certo que também haverá um tempo obrigatório significativo de se passar com eles. Digo obrigatório porque é um tempo ansioso e não prazeroso de estar junto, é quando os “adultos” ainda procuram ficar no papel de filhos dos seus pais numa tentativa de suprir suas carências infantis. Daí, com certeza o tempo do casal também poderá ser sacrificado.


O tempo, o divórcio e o recasamento

tempo, relacionamentos, trabalho, tecnologia, divórcio, recasamento, saúde, doença, poder, dinheiroO divórcio e o recasamento trazem para as famílias uma série de desafios de lutos, superação de sentimentos, reorganização da vida individual e da co-parentalidade, ampliação e abertura do sistema familiar e social para inclusão dos novos parceiros e filhos, reestruturação financeira, definição de papéis e de limites e consequentemente de negociação do tempo gasto com cada parte do sistema.
Se as tarefas emocionais do divórcio ainda não foram resolvidas, antigas lealdades invisíveis ao ex-parceiro e aos filhos do casamento anterior, ou a família de origem poderão controlar o tempo que o indivíduo passa com o novo parceiro e os filhos do atual relacionamento. Isso sem contar com as emoções que essa “má” distribuição temporal irá gerar em todos os relacionamentos.
Se a arquitetura de organização do tempo em uma família intacta (sem divórcio) já é bastante difícil, imagine a de uma família recasada por segunda ou terceira vez. É necessário muito jogo de cintura e boa vontade de todas as partes, ou pelo menos das partes adultas, para realizar a organização temporal.


O tempo e a tecnologia

Uma cena que se tornou extremamente comum nos dias de hoje é encontrar um “casal” sentado em um contexto qualquer, cada um segurando e mexendo em seu aparelho multifuncional. Os contatos físico, visual e auditivo são precários e quando acontecem, é para mostrar algo no próprio aparelho. Fora aquelas pessoas que fotografam o evento no qual estão participando e imediatamente publicam em alguma rede social. Outro dia vi um desses banners de facebook, escrito em espanhol, que dizia o seguinte: “no tenemos wi-fi, hablen entre ustedes!”.
Teoricamente, a tecnologia tem o propósito de aproximar as pessoas. Hoje com os recursos de internet, Skype, facebook e afins, o contato globalizado se tornou muito mais fácil. Fui outro dia no Museu das Telecomunicações em Belo Horizonte e fiquei impressionada com a rápida evolução dos meios de comunicação. Há menos de um século a telefonia era feita via telefonista! Não muito distante, na minha época de faculdade (1998-2002), ainda tínhamos telefones “tijolinhos” e internet discada.
O que quero enfatizar é que a tecnologia trouxe uma série de recursos muito positivos para a contemporaneidade. Mas a evolução humana não acompanha a evolução tecnológica. Nós humanos é que fazemos um uso distorcido dela, de acordo com nossa própria saúde e doença. Daí, os parceiros que estão engolidos pela tecnologia, dificilmente conseguirão construir intimidade para se tornarem casal, pois o tempo que passam juntos, é uma ausência compartilhada.


Tempo e fatores biológicos e de saúde

Quando um dos parceiros tem uma doença crônica, física ou mental, o tempo para tratamento é significativo, e a fragilidade ou enlouquecimento do doente afeta a disponibilidade e a qualidade do tempo do casal. É muito comum o parceiro saudável assumir funções paternas e de cuidador, o que pode a longo prazo, prejudicar o relacionamento erótico do casal.


Tempo e crenças da cultura de origem e sistemas mais amplos

Qual ou quais são os valores da cultura onde você vive? É o trabalho? É a família de origem? É o casamento? É a igreja? É o prazer? São os amigos? É o corpo ou a beleza física? É o dinheiro? É o poder? É o status?
Qualquer que seja o valor cultural, ele sempre irá permear as buscas do indivíduo e do casal, sendo um campo de investimento de tempo, e se o valor não incluir o investimento no relacionamento, seu tempo será insignificante.


O tempo e as questões de poder e dinheiro

Quando no relacionamento os parceiros têm uma tendência mais igualitária, é muito comum que haja disputa de poder em diversos âmbitos, inclusive sobre o tempo dedicado a estarem juntos. A questão do dinheiro acaba entrando como reforçador da disputa de poder, e quando há uma desigualdade de ganhos, aquele que ganha mais pode usar do poder do dinheiro para controlar a relação, e impor a quantidade de contato que quiser no relacionamento, com a desculpa de que precisa trabalhar para o sustento do casal, pois seu salário é o que “garante” uma boa ou melhor qualidade de vida.
Algumas pessoas utilizam da vitimização como forma de poder, fazendo jogos emocionais para que o parceiro se sinta culpado e em débito, realizando, consequentemente, o que o vitimizado deseja.
Toda disputa de poder gera algum tipo de desgaste para o relacionamento. Assim, mesmo quando há um tempo para o casal, este será preenchido com emoções de raiva e competição, não facilitando a proximidade que favorece a construção da intimidade.


Estabelecendo um tempo para o relacionamento

tempo, relacionamentos, trabalho, tecnologia, divórcio, recasamento, saúde, doença, poder, dinheiroNormalmente, indivíduos e casais têm expectativas infantis sobre a resolução de problemas. Querem ou gostariam que fossem resolvidos de forma mágica, sem que tivessem que fazer esforços para tal. Este é o mito da espontaneidade, onde se alimenta a crença de que o problema de tempo será resolvido naturalmente. Como o próprio nome diz, Mito!
O casal que deseja melhorar a qualidade de seu tempo deverá assumir seriamente a responsabilidade pela organização, limite e disciplina sobre a preparação e manutenção do tempo para outras atividades e atividades em comum.
E o que é um tempo de qualidade para o relacionamento? Resumidamente, são aqueles momentos que há qualidade de presença, de entrega e de viver por inteiro o contato. Os parceiros estão focados um no outro e nas coisas do relacionamento, ficando as coisas do mundo externo como pano de fundo. É onde há diálogo e nesse diálogo há um aprofundamento da intimidade afetiva, com revelação de sentimentos mais profundos.
Uma vez organizado e delimitado o tempo para o relacionamento, ele deve ter um caráter sagrado, ou seja, cada parceiro irá abrir mão de qualquer outra atividade que coincidir com o tempo estabelecido para o casal. E ao defender e cumprir responsavelmente com esse tempo, a longo prazo cria-se um ritmo que também é importante para o sentimento de envolvimento, proximidade e continuidade entre os parceiros.
Mesmo quando o tempo para estar juntos for pequeno, algumas atividades podem favorecer o sentimento de conexão do casal. Uma técnica interessante fala sobre os “pontos de prazer de 60 segundos” *, quando os parceiros definem atividades divertidas, prazerosas ou sensuais que possam realizar em no máximo 60 segundos, estando juntos ou distantes. Podem estar relacionadas a beijos, abraços, carinhos, carícias diferentes, falas no ouvido, dançar, massagens, orações juntos, poemas recitados, mensagens, brincadeiras, enfim, tudo que faça sentido para o casal.
O importante é que cada indivíduo assuma seus 50% de responsabilidade para com seu relacionamento, doando não apenas o seu tempo, mas fazendo-o com suas melhores qualidades.
Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH
  
* Para escrever este texto estudei o capítulo Relógios, Calendários e Casais – o tempo e o ritmo dos relacionamentos, de Fraenkel e Wilson (conferir página de indicação de livros), do livro Casais em Perigo, organizado por Peggy Papp.

Imagens:


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