segunda-feira, 31 de março de 2014

MULHERES QUE AMAM DEMAIS - DESESPERO E SOFRIMENTO POR AMOR


MULHERES QUE AMAM DEMAIS
DESESPERO E SOFRIMENTO POR AMOR
Mada, mulheres que amam demais, vício, dependência, desespero, sofrimento, carência, amor

Cansei
De tentar encontrar respostas,
De tentar entender o porquê das suas atitudes...
De aceitar a culpa por aquilo que eu não provoquei (...)
Lendo o livro “Mulheres que amam demais” de Robin Norwood, identifiquei uma série de questões que se encaixam perfeitamente nas mulheres da minha família, inclusive eu, especialmente no meu período de inconsciência, antes de encarar um processo terapêutico de forma mais consistente. Minha avó paterna foi uma mulher que ama demais, correndo atrás de um marido alcoolista, viciado em jogos e motorista que ficava grande parte da vida distante da família. E ela fez coisas impensáveis tentando trazê-lo de volta para dentro de casa, o que afetou definitivamente a forma de suas filhas encararem as relações amorosas. As mulheres da geração seguinte acabaram repetindo de forma bastante semelhante a história de minha avó, casando com maridos alcoolistas e castradores de seus potenciais ou desistindo dos relacionamentos por não acreditar na existência de homens bons. A terceira geração de mulheres ainda sofre consequências desses padrões, repetindo a atração por homens indisponíveis, não confiáveis, e a dificuldade de construção de intimidade. E eu estou nesta história, lutando para romper com esses padrões emocionais limitantes e completamente insatisfatórios.
Uma mulher que ama demais (Mada) é viciada em “amar” e seu conceito de amor está associado com sofrimento, com cuidar do outro, com transformar o outro em alguém melhor, com ter que lutar para conquistar o amor, com ter que se esforçar e fazer tudo pelo relacionamento, com culpar-se pelos fracassos da relação, com uma emocionalidade exagerada e uma adrenalina recorrentes. Essas mulheres vivem num caos emocional constante provocado por esses relacionamentos conturbados e imprevisíveis. Este caos é um engodo para esconder todo o medo de não ser amada, de não ter valor nem merecer amor, de ser ignorada, de ficar sozinha, ser abandonada ou destruída. Reflexos de uma realidade histórica muito dolorosa.
Mada, mulheres que amam demais, vício, dependência, desespero, sofrimento, carência, amorAs histórias de origem das mulheres que amam demais são bastante complicadas e seus lares foram lugares muito doentios e desajustados de se viver. Violência física e psicológica, abandono – em vida ou em morte –, negligência, ciúmes e possessividade, transtornos mentais como esquizofrenia, depressão, bipolaridade, alcoolismo e outras drogas, são apenas alguns dos problemas familiares vividos, muitas vezes vários deles simultaneamente. Uma das reações principais das Madas é a negação da realidade dolorosa, mecanismo de defesa criado para conseguir sobreviver em suas famílias disfuncionais. E outra reação fundamental é a transformação de si mesmas em cuidadoras da família, super responsivas, na tentativa de mudar ou pelo menos controlar o ambiente familiar, para que seja menos devastador. A conclusão frequente é o fracasso pois uma criança ou adolescente não têm poder para mudar um sistema familiar inteiro.
Assim, munidas dessas duas reações - negação da realidade e papel de cuidadora – tais mulheres projetam nos relacionamentos amorosos, os mesmos papéis que aprenderam a operar em suas famílias de origem. Para continuar funcionando desta forma, precisam atrair e atraem homens que precisam ser cuidados, ou seja, homens que tenham algum ou vários tipos de problemas, que deem a ideia de precisarem da ajuda delas. Dessa forma, há a reconstituição do ambiente familiar original, onde as mulheres tentarão novamente controlar tudo para conseguirem consertar no parceiro o problema que não conseguiram resolver no passado. Novamente vem o fracasso e novamente elas se culpam tentando controlar e “melhorar” a si mesmas para mudar o outro. Está estabelecido o ciclo vicioso doentio dessas relações.
Robin Norwood resume assim as características das Madas:
1.     Você vem de um lar desajustado em que suas necessidades emocionais não foram satisfeitas.
2.     Como não recebeu um mínimo de atenção, você tenta suprir essa necessidade insatisfeita através de outra pessoa, tornando-se superatenciosa, principalmente com homens aparentemente carentes.
3.     Como não pôde transformar seus pais nas pessoas atenciosas, amáveis e afetuosas de que precisava, você reage fortemente ao tipo de homem familiar mas inacessível, o qual tenta, mais uma vez transformar através de seu amor.
4.     Com medo de ser abandonada, você faz qualquer coisa para impedir o fim do relacionamento.
5.     Quase nada é problema, toma muito tempo ou mesmo custa demais, se for para “ajudar” o homem com quem está envolvida.
6.     Habituada a falta de amor em relacionamentos pessoais, você está disposta a ter paciência, esperança, tentando agradar cada vez mais.
7.     Você está disposta a arcar com mais de 50 por cento da responsabilidade, da culpa e das falhas em qualquer relacionamento.
8.     As autoestima está criticamente baixa, e no fundo você não acredita que mereça ser feliz. Ao contrário, acredita que deve conquistar o direito de desfrutar da vida.
9.     Como experimentou pouca segurança na infância, você tem uma necessidade desesperadora de controlar seus homens e seus relacionamentos. Você mascara seus esforços para controlar pessoas e situações, mostrando-se “prestativa”.
10.  Você está muito mais em contato com o sonho de como o relacionamento poderia ser que com a realidade da situação.
11.  Você é uma pessoa dependente de homens e de sofrimento espiritual.
12.  Você tende psicologicamente e com frequência bioquimicamente a se tornar dependente de drogas, álcool e/ou certos tipos de alimento, principalmente doces.
13.  Ao ser atraída por pessoas com problemas que precisam de solução, ou ao se envolver em situações caóticas, incertas e dolorosas emocionalmente, você evita concentrar a responsabilidade em si própria.
14.  Você tende a ter momentos de depressão e tenta preveni-los através da agitação criada por um relacionamento instável.
15.   Você não tem atração por homens gentis, estáveis, seguros e que estão interessados em você. Acha que esses homens “agradáveis” são enfadonhos. (Mulheres que amam demais, p. 23-24).
Diante dessas características, podemos observar que essas são mulheres que estão desesperadas em busca de amor, na tentativa de suprir suas carências originais mais profundas. No entanto elas entram em relações exatamente opostas ao que procuram, ficando presas em uma dupla mensagem: “estou sedenta por amor, mas não tenho permissão para viver esse amor que desejo pois o conceito de amor que conheço e vivi é completamente diferente do que almejo, dessa forma atraio homens indisponíveis mas farei todo esforço para transformá-lo no homem que me amará como preciso”. Enquanto isso elas repetem a falta do amor em suas vidas e vivem apenas a promessa do amor ou o sofrimento pela repetição de suas histórias.
Buscar suprir suas carências na relação amorosa é um grande erro que as pessoas no geral cometem. Colocar a responsabilidade pela própria felicidade nas mãos do parceiro é deixar de assumir o cuidado consigo próprio, correndo um grande risco de o outro não corresponder a sua expectativa. Mas quem nunca fez isso? Um dos grandes aprendizados da vida é tomar a vida nas próprias mãos.
Mada, mulheres que amam demais, vício, dependência, desespero, sofrimento, carência, amorNo caso das mulheres que amam demais, elas chegaram ao extremo dessa expectativa, tornando-se viciadas em “amar”, um falso amor pelo outro na tentativa de conseguir o amor para si mesma. Nesse patamar de realidade, onde já se perdeu o controle sobre o vício, torna-se fundamental a participação nos grupos de auto-ajuda Mulheres que Amam Demais Anônimas (MADA) e outros tipos de terapias, como médicas – casos de depressão e ansiedade dentre outros - e psicológicas.
Como qualquer outro tratamento para viciados – álcool, drogas, comida, etc. – há um longo processo de recuperação pela frente, que segundo Norwood inclui admitir o vício e a falta de controle sobre a doença e procurar ajuda especialmente num grupo de semelhantes, parar de culpar os outros pelos próprios problemas e a si mesma por não agir adequadamente, fazer da própria recuperação sua prioridade principal na vida, dirigir a si mesma e cuidar responsavelmente das próprias atitudes e necessidades, começar a lidar com os sentimentos atuais e originais e enfrentar os próprios problemas e defeitos de forma corajosa, construir um novo círculo de amigos com interesses saudáveis, desenvolver uma espiritualidade de prática diária, desistir e parar de controlar o parceiro, aprender a não se envolver em jogos emocionais, aprender a pensar em si mesma em primeiro lugar – tornar-se “egoísta” – e por último, quando já estiver mais saudável, partilhar sua experiência, seu aprendizado e seu processo de melhora com outras mulheres semelhantes.
Mudar os padrões emocionais disfuncionais dos relacionamentos familiares é uma tarefa que requer um esforço consciente, contínuo e determinado, onde a base de sustentação está no aprendizado do limite consigo mesmo. Requer que não aceitemos viver uma vida medíocre e só aceitemos um relacionamento quando ele for o que realmente desejamos. Mas pra isso, precisamos aprender a cuidar das nossas carências para não ficarmos dependentes dos parceiros e dos relacionamentos. 
Finalizo o post com o clip da música "Try" da cantora Pink,  que acho que simboliza artisticamente todo o drama de uma mulher que ama demais:

 (tradução do refrão da música, retirada do site letras.mus.br: "onde há desejo, haverá uma chama, onde há uma chama, alguém está sujeito a se queimar, mas só porque queima não significa que você vai morrer, você tem que se levantar e tentar e tentar e tentar" )


Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH

Figuras


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2 comentários:

  1. Mt interessante! : ILMA.

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    1. Obrigada pela sua passadinha por aqui Ilma! Um abraço, Adriana

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