segunda-feira, 3 de março de 2014

CARNAVAL - NO LIMITE ENTRE DIVERSÃO E COMPULSÃO

CARNAVAL

NO LIMITE ENTRE DIVERSÃO E COMPULSÃO


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Nos últimos anos, sempre disse que não gosto ou não ligo para o carnaval, que não vivi o carnaval na minha adolescência, momento em que “deveria” ter vivido, e por isso não peguei gosto pela festa. Além do mais, acabei criando uma crença de que o carnaval teria uma energia ruim uma vez que é uma festa onde vários excessos são permitidos e vividos coletivamente. Mas este ano me peguei querendo ir em alguns blocos de carnaval aqui em BH, e comecei a pensar por que dois sentimentos tão diferentes, rejeição e desejo, estavam habitando meu ser.
No ano passado fui em apenas um bloco, e até que foi bastante divertido. As músicas eram boas, o pessoal e o batuque bastante animados e a companhia agradável. Fiquei pouco tempo atrás do bloco, mas tempo suficiente para sentir que aproveitei. Acho que pude redefinir o carnaval como sendo aquilo que eu queria viver. Fiquei na festa o tempo que quis e não participei dos excessos que a festa oferece, por escolha.
Pesquisando sobre o tema, encontrei um trabalho fantástico de Roberto DaMatta, “O Carnaval, ou o mundo como teatro e prazer”, capítulo do seu livro “O que faz o brasil, Brasil?”, onde o autor faz uma reflexão social e antropológica do carnaval brasileiro. Segundo DaMatta, para nós brasileiros a vida diária e o trabalho são vistos como castigo, fardo e peso e por isso precisamos e utilizamos os momentos de festas para viver a alegria e quebrar essa dureza do viver. Ele define a festa:
“Sabemos que o carnaval é definido como “liberdade” e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa e utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecado e deveres. Numa palavra, trata-se de um momento onde se pode deixar de viver a vida como fardo e castigo. É, no fundo, a oportunidade de fazer tudo ao contrário: viver e ter uma experiência do mundo como excesso — mas agora como excesso de prazer, de riqueza (ou de “luxo”, como se fala no Rio de Janeiro), de alegria e de riso; de prazer sensual que fica — finalmente — ao alcance de todos”.
Nesta perspectiva, o brasileiro sairia de uma hierarquia cultural, social e econômica engessada e passaria para um patamar de igualdade, pois no carnaval fantasia se mistura com realidade, e dá certa coragem para os indivíduos viverem, ou atuarem (como personagens do teatro), o que talvez não conseguiriam sem estar por detrás de suas máscaras carnavalescas.

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Dois itens utilizados de forma compulsiva ajudam a acentuar as máscaras carnavalescas: drogas lícitas e ilícitas, e sexo. Numa tentativa de intensificar aquela sensação de prazer imediato, momento de exceção da vida dura, os excessos são vividos de forma inconsequente, gerando inclusive atitudes inconsequentes, travestidas de vida e vitalidade.
Mas o problema “resolvido” é o problema relembrado quando a festa acaba. Cada indivíduo volta ao seu papel social original. Sem ter feito mudanças internas significativas, uma vez que as mudanças carnavalescas são apenas execuções superficiais de papéis e fantasias, os indivíduos podem cair num total vazio existencial, que provavelmente já existia antes e estava sendo mascarado desesperadamente. A questão pode agravar-se ainda mais quando alguma inconsequência gera um resultado inesperado para a vida dos indivíduos: doenças sexualmente transmissíveis ou gravidez.

relacionamentos, carnaval, diversão, compulsão, fantasia, realidade, máscaras, paixão carnavalescaNota sobre Relacionamentos Carnavalescos:

É possível apaixonar-se no carnaval e construir uma relação a partir do encontro nesse contexto? Conheço algumas histórias bem sucedidas e geralmente acontecem com pessoas que realmente estão abertas para um relacionamento e em busca do mesmo. No geral, o encontro de duas pessoas fantasiadas é também uma fantasia, podendo gerar paixão, mas dificilmente esta paixão se sustenta pois foi o encontro de duas máscaras, de dois personagens. Quando a realidade aparece, o que justificava a relação morre imediatamente.
relacionamentos, carnaval, diversão, compulsão, fantasia, realidade, máscaras, paixão carnavalescaInfelizmente, pessoas carentes também buscam no carnaval uma emoção que venha aplacar seu vazio existencial, e são presas fáceis da fantasiosa paixão carnavalesca.
Em termos relacionais, o carnaval pode ser uma diversão saudável ou uma busca compulsiva por prazer, dependendo de como cada indivíduo está lidando com suas carências afetivas e necessidades emocionais, cuidando de si mesmo ou buscando aplacar suas dores em algo externo.
Minha redefinição pessoal final foi: cada indivíduo terá seu carnaval conforme seu reflexo interno.
Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH
Continuo encantada pelas obras artísticas! Segue abaixo as referências das imagens utilizadas:
4 - http://artodyssey1.blogspot.pt/2014/03/julio-visquerra.html

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2 comentários:

  1. Verdade Adriana, acredito que vivenciar o carnaval irá depender do desenvolvimento interno de cada pessoa, além da importância e valorização que ela se dá. Ótimo texto, parabéns!

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  2. Obrigada Fernanda!
    O carnaval é uma época onde as fantasias estão autorizadas de serem vividas, e se o indivíduo não tiver limites internalizados irá colocar pra fora todas estas fantasias. O que pode ser bom ou ruim dependendo da fantasia e dos limites.
    Obrigada por deixar seu comentário!
    Abraços
    Adriana

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