domingo, 16 de fevereiro de 2014

SEXUALIDADE FEMININA - MARCAS PROFUNDAS DA CASTRAÇÃO

SEXUALIDADE FEMININA

MARCAS PROFUNDAS DA CASTRAÇÃO

Relacionamentos, sexualidade, mulher, feminilidade, castração, mãe e filha, religião, prazer.

Mesmo com a liberação sexual adquirida pelas mulheres em consequência dos movimentos feministas, o que tenho visto na prática clínica e em relações de amizade, são mulheres ainda profundamente castradas, vivendo uma sexualidade medíocre, sem utilização de todo seu potencial e sem vivenciar todo prazer que lhe seria possível.
A falta de libido ou uma libido embotada, escondida, é um dos sintomas mais corriqueiros da sexualidade feminina castrada. A escassez ou a total falta da masturbação é impressionante! Assim, as mulheres deixam de viver uma sexualidade individual e saudável e por consequência, deixam de exalar uma energia sexual que é importante no processo de sedução, conquista e manutenção dos relacionamentos.
Relacionamentos, sexualidade, mulher, feminilidade, castração, mãe e filha, religião, prazer.Um outro sintoma da sexualidade castrada é a prática sexual sem a vivência do prazer. Muitas mulheres praticam sexo ou compulsivamente ou com uma frequência razoável, porém estão ali apenas como numa performance teatral, atuando ser o que não são e sentir o que não sentem na realidade. Não há entrega tampouco aquele prazer mais profundo que une o físico, o emocional/afetivo e o relacional. Talvez apenas um prazer de ordem física por estimulação genital. E infelizmente elas acabam atraindo parceiros que comprovam suas crenças sobre um prazer limitado.
Um filme onde identifiquei questões interessantes sobre a castração é “Shortbus”, dirigido por John Cameron Mitchell, onde uma das personagens é uma terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo. Ela e outros personagens se encontram em Shortbus, um clube underground que mistura arte, política, música e sexo, tendo que se deparar com suas questões que a impedem de sentir o prazer.
A castração também marcou meu corpo. Eu fui criada para casar virgem. Minha mãe, em seus valores religiosos católicos, me ensinou “direitinho” a premissa da virgindade com alguns agravantes: homens não prestam! Se você fizer “o que eles querem”, eles vão te usar e depois te abandonar. E foi com essa crença que cresci. Fui uma “boa menina” até entrar para a faculdade e diga-se de passagem, bendita faculdade! Lá foi onde pude questionar tais parâmetros maternos, pois passei a ver colegas que transavam com os namorados e eles não as abandonavam. Este foi apenas o início das minhas mudanças de valores a respeito da sexualidade, das relações e da religião.
Destaco neste post duas formas de castração em especial: aquela via modelo de ser mulher, aprendido com a mãe e outra via religião. A castração nem sempre implica numa intervenção direta, clara e proibitiva sobre a sexualidade, mas na maioria das vezes diz respeito as mensagens subliminares das nossas relações de origem.
A castração feminina começa muito cedo, dentro de casa. Desde a infância recebemos mensagens conscientes e inconscientes, verbais e não-verbais, emocionais e corporais sobre nossa sexualidade e sobre o ser mulher, especialmente com a figura materna, suas crenças e visões a respeito dos relacionamentos, dos homens e de sua vivência do prazer.
No mito de Deméter (arquétipo da mãe) e Perséfone (arquétipo da filha), quando Perséfone é raptada por Hades e levada ao reino subterrâneo, a mãe se revolta e em protesto deixa sua função de deusa da agricultura, que fazia nascer a vida, fazendo a terra se tornar estéril. Até que uma negociação entre Zeus e Hades permite a Perséfone passar a primavera com a mãe. Podemos metaforicamente fazer uma superficial leitura desse mito associando-o ao aprisionamento que as filhas têm em relação as seus modelos de mulher/mãe. A mãe "não libera" a filha para se separar dela e ir viver seu romance com um homem. A filha por sua vez fica com um compromisso de lealdade com essa mãe, tendo que visitá-la ou seja, não abandonando seu modelo feminino.
Relacionamentos, sexualidade, mulher, feminilidade, castração, mãe e filha, religião, prazer.
Deméter e Perséfone
Para compreender as marcas da castração no seu corpo, comece observando sua mãe de hoje e de antigamente, tentando resgatar as “vozes” do passado, as quais ela expressava alguma coisa sobre a sexualidade e sobre as relações. Relembre como ela se posicionava na vida como mulher. Tinha ou não permissão para o prazer? Expressava dor, sofrimento, peso ou satisfação e prazer em relação ao ser mulher? Sua mãe é seu primeiro modelo feminino, e a forma como ela viveu afetará diretamente sua relação com seu corpo, sua sexualidade e seu feminino.
Observe também a relação dos seus pais ou casais de sua família. Como demonstravam afeto? Beijavam na frente dos filhos? Expressavam desejo um pelo outro na frente dos filhos? Qual era a atitude deles em relação a nudez? E em relação ao corpo deles e a seu corpo?
Faça uma lista dos mitos que você conhece a respeito da sexualidade e que te influenciaram e influenciam até hoje.
Numa hierarquia um pouco superior a familiar, e um pouco mais ampla em termos culturais,  encontramos a religião, que pode ser profundamente castradora. Avalie: qual a influência você teve da religião ou prática religiosa em seu crescimento? Quais mensagens sobre sexo você recebeu na educação religiosa e como foi influenciado por elas? Como as crenças religiosas influenciam sua vivência da sexualidade hoje?
A visão religiosa proibitiva da sexualidade costuma provocar uma culpa tão grande nos indivíduos que decidem vivê-la que muitas vezes a sexualidade é vivida de forma inadequada, impulsiva, inconsequente e desprazerosa. Lembrei-me de uma cena do seriado “Sex and the City” onde uma das personagens, Miranda, está transando com um homem que já havia sido um religioso, e após toda transa ele sempre saía da cama rapidamente para tomar um banho. E quando ela pediu pra ele ficar, dizendo que sexo não era sujo nem pecado, ele deu um acesso de raiva e a expulsou da casa dele. Apesar de ter arranjado uma estratégia para se sentir menos culpado pelo sexo, o dito cujo sentimento estava lá!
A culpa pode ser associada também a masturbação. Apesar de a mesma ser uma expressão normal e saudável da expressão sexual, a atividade ainda pode ser bastante conotada como inadequada e provocando efeitos nocivos. Mito!
Só é possível se livrar da culpa em relação a sua sexualidade quando você assume uma condição crítica a respeito dos dogmas e valores religiosos e familiares que você recebeu. Você é um ser pensante e precisa avaliar racional e emocionalmente o que é bom ou não para sua vida. A religião deve te ajudar a conectar-se com o divino mas não deveria prejudicar sua conexão consigo mesmo e com sua sexualidade.
Nós mulheres precisamos nos despir dessas influências de nossas origens para podermos viver uma sexualidade plena. Precisamos melhorar a relação com o próprio corpo. Enxergar e vivenciar o erótico em nossos corpos e a beleza desse erotismo, desconectando-o dos mitos originais. Precisamos suplantar os padrões de ser mulher das nossas origens.
Heiman e Lopiccolo, em seu livro "Descobrindo o Prazer" apontam que a mulher precisa assumir a responsabilidade por sua própria sexualidade, ou seja, precisa buscar desenvolver o seu prazer independente de estar ou não numa relação. Isto significa que não deveria ficar esperando ter um parceiro que lhe desperte sua sexualidade e que lhe dê prazer mas sim descobrir formas de viver prazerosamente sua própria sexualidade.
Melhorar a relação com o próprio corpo também depende diretamente do questionamento dos padrões de beleza impostos, que nos deixam escravas lutando contra uma feiura corporal que não existe. Implica em gostar do próprio corpo mesmo quando ele possui umas gordurinhas localizadas, umas pochetezinhas na barriga, ou alguns chumaços de celulite nas pernocas, ou alguns riachos de estrias no bumbum!
Viver a sexualidade individualmente significa tirar um tempo para descobrir o próprio corpo e para seduzir a si mesma. Invista na aventura de descobrir o prazer no seu corpo com toques, com cremes, com óleos, com texturas e observar como e onde sente mais prazer. Seduza e erotize a si mesma! Utilizar de recursos femininos como lingeries pode ajudá-la nessa fantástica descoberta erótica de si mesma.
Acredito que quando a mulher consegue enfrentar sua própria castração e trabalhar em função de transformá-la, estará muito mais livre para construir um espaço erótico e prazeroso nos relacionamentos. Estará mais pronta pra viver uma sexualidade mais satisfatória e plena consigo mesma e com o outro.

Relacionamentos, sexualidade, mulher, feminilidade, castração, mãe e filha, religião, prazer.

Estou encantada com as pinturas que encontro no blog: http://artodyssey1.blogspot.com.br/
Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH

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4 comentários:

  1. Parabéns Adriana muiiiito bom vc tratar este tema,vai servir p muita gente e eu me incluo tb...bj

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    1. Que bom que você gostou Kero! Tomara que ajude as mulheres a despertar esse lado super importante das nossas vidas! Um abraço!
      Adriana

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  2. Respostas
    1. Que bom que você gostou Roberval! Agradeço por deixar seu comentário!
      Um abraço
      Adriana

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