domingo, 23 de fevereiro de 2014

A PAIXÃO - FANTASIA x REALIDADE

A PAIXÃO

FANTASIA x REALIDADE

Relacionamentos, paixão, fantasia, realidade, ilusão, inconsciente, fantasmas, intuição

“Tenho para mim que durante as primeiras fases, a relação seria, de fato, entre quatro pessoas:  duas, as reais, permanecem escondidas. As outras duas, ou talvez  outras quatro, são produto da  fantasia: o rapaz, que ele gostaria de ser, o ideal de si mesmo, está em relação com a moça que ele idealiza, com seu ideal de mulher. A moça, também põe em relação sua própria idealização de si mesma com seu ideal de homem. Vês, seriam  seis pessoas. A paixão é um incêndio, uma sublime loucura que pouco tem a ver com a realidade”.
Carlos Arturo Molina-Loza
Esta frase é de um autor que gosto, terapeuta sistêmico também, o Molina, quando escreveu sobre a paixão em um de seus livros*. Ele mostra como uma relação nos períodos iniciais está  completamente perpassada por  ideais fantasiosos de si e do outro, ocultando partes importantes dos indivíduos. Escondemos a pessoa real que somos e não vemos o outro real. Relacionamos mais com o nosso desejo do que com a realidade.

Todo início de qualquer relação, na sedução, acontece que ficamos encantados com nossa própria fantasia a respeito do outro, com nossa própria idealização. Mostramos somente nossas melhores partes internas fazendo um esforço inconsciente para exaltá-las. Escondemos nossas piores partes não por maldade ou má intenção, mas porque durante o encantamento nos esquecemos delas, pois vemos nossa perfeição estampada no espelho que é o olhar do outro.
A paixão é uma atração com bases inconscientes, onde subliminarmente nos identificamos com o outro a  partir de padrões semelhantes e (des)conhecidos de nossas origens, nossa doença que casa com a doença do outro, ou nossa carência que casa com a carência do outro.
Um filme que mostra essa identificação, essa atração com base na semelhança mais profunda é o "Românticos Anônimos", um filme dirigido por Jean-Pierre Améris. Os dois personagens que formarão o casal são Jean-René que é o dono de uma pequena fábrica de chocolate e Angélique, uma confeiteira fantástica que começa a trabalhar para ele. Ambos têm uma timidez patológica e quando se encontram, se identificam, se apaixonam e precisam enfrentar certos limites próprios para ficarem juntos.
Segundo Matarazzo*, como nosso mundo externo é cheio de falhas, ele não consegue suprir nosso mundo interno que acaba ficando também cheio de vazios não preenchidos. Deparar com esses vazios nos faz querer preenchê-los e nesse contexto surge uma necessidade ávida por amor, a qual desesperadamente, buscaremos suprir numa relação.
Relacionamentos, paixão, fantasia, realidade, ilusão, inconsciente, fantasmas, intuiçãoEntão, quando acontece um encontro entre dois seres nessa mesma busca desesperada, cada parceiro apaixonado tem uma ânsia por se completar, e por isso absorve, engole, se deixa absorver e engolir pelo outro. O sentimento cresce podendo se transformar numa “monomania” (ideia fixa em um objeto específico), na coisa mais importante da vida, na razão de ser da própria existência, onde os indivíduos acabam se afastando de suas outras relações, o que aumenta mais ainda a expectativa sobre o outro, uma vez que ele se torna a única fonte de gratificação, apoio e amor. Embutida nessa entrega total, existe seu oposto, uma grande exigência de complementação total. Os parceiros estão capturados num jogo sem fim, uma prisão paradisíaca, e enquanto conseguem manter essa dinâmica, o fogo da paixão estará aceso. Até que alguém quebre o pacto inconsciente de entrega total.
A quebra do pacto pode não ser um grande evento, as vezes é uma pequena escolha do dia a dia, de fazer algo para si mesmo, sem incluir o outro. Um forte sentimento de traição acometerá um dos parceiros gerando cobranças destrutivas. O príncipe e a princesa se tornam sapo e sapa imediatamente. E uma vez quebrado o pacto, a paixão inicia uma descida rápida e íngreme de deterioração, podendo chegar a uma separação, também dolorosamente avassaladora dos indivíduos.
Por outro lado, a decepção que vem em seguida da paixão é a grande chance da relação evoluir com realidade. Somente quando ambos passam a enxergar o outro real, com suas qualidades e defeitos,  na medida que se ultrapassam as fantasias e expectativas narcísicas, é que existe a chance de se tornar casal. E do sentimento da paixão evoluir para o amor.
Refletindo sobre o encantamento da paixão e por que é tão difícil uma relação se sustentar após sua passagem, me questiono sobre as qualidades apresentadas pelos indivíduos nessa fase da relação. Por que  no início das relações, naquele momento apaixonado,  damos o melhor de nós mesmos, mas depois ficamos  "preguiçosos" e damos  apenas nosso pior? Se durante a paixão, internamente tínhamos certos recursos para usar na sedução, esses recursos de  fato existem dentro de nós, e podemos acessá-los novamente quando decidirmos fazer essa escolha. 

Considerando que a relação continue após a paixão, o problema é: por que não estou dando o melhor de mim? Seria uma punição porque o outro não está me dando o que eu espero, quero e preciso? Seria uma economia relacional por não acreditar nas próprias fontes internas? Seria um reflexo do que eu senti recebendo ou deixando de receber das minhas relações de origem?
Deixar de doar pode ser, em primeiro lugar, um deixar de doar para si mesmo. Se estou esperando receber do outro, acabo por não atender minhas próprias necessidades. Assim fico na falta e a expectativa sobre o outro aumenta ainda mais. Claro que existem relações muito pouco nutridoras,  nas quais há um sério comprometimento  afetivo. Mas se "é dando que se recebe", não dando não haverá retorno ou ficarei numa posição de filho, esperando receber incondicionalmente do parceiro.
Faça uma lista das suas qualidades e dos seus defeitos, tentando ser o mais honesto possível. Avalie de acordo com suas qualidades, o que você tem, pode e gosta de oferecer numa relação. Primeiro seja coerente com você mesmo. Se numa relação você começa a fazer jogo emocional, age de forma incoerente com seus valores, e começa a ser quem você não costuma ser, um sinal de alerta se liga, como uma sirene de ambulância, mostrando que algo de muito errado está acontecendo.
Duas perspectivas são possíveis.  Na primeira você pode estar se deparando com seus piores fantasmas. Viver uma relação é um grande desafio na medida que nossas piores doenças podem aparecer: inseguranças, fantasias de abandono, medo do sofrimento, etc.,  inclusive quando se está com um bom parceiro. Numa segunda perspectiva, você está lidando com uma relação sem qualidade, com um  parceiro ruim, que não tem para te oferecer o que você busca e deseja. E nada do que você faça poderá mudar o outro e transformá-lo na pessoa que você deseja. Se você continuar tentando, vai ficar cada vez mais frustrado.
Na primeira, você precisa se tratar para não se boicotar de viver uma relação positiva e uma experiência de crescimento. Na segunda você precisa deixar a relação, como uma forma de defesa ou escolha a partir de uma autoestima fortalecida ou em processo de se fortalecer, acreditando que poderá encontrar relações melhores.
Por que ficamos em relações ruins? Porque aprendemos várias mensagens inadequadas com nossas famílias, a respeito do nosso valor e a respeito de modelos relacionais. Ficamos carentes e nem sempre aprendemos a cuidar de nossas carências, tornando-nos frágeis expectadores de amor. Nessa condição, e considerando que no momento da conquista só o lado bom aparece, tornamo-nos presas fáceis de uma ilusão paradisíaca, que pode se tornar uma armadilha, da qual a saída possível é a melhoria da autoestima.
Não é possível construir uma relação sem passar pelas ilusões dos períodos iniciais. Mas é possível tentar colocar mais razão nas suas escolhas. Se o sinal de alerta piscar insistentemente, considere. Sua intuição é sua amiga, mas seu ego é um pirralho pentelho, um lado bastante infantil que pode tanto te prejudicar como servir de guia na sua descoberta de suas dificuldades emocionais a serem trabalhadas para estar num relacionamento de forma saudável.
Apesar de todas considerações a respeito da fugacidade, intensidade, durabilidade e devastação causadas pela paixão, ainda concordo com uma fala final da personagem Rose, numa das cenas do filme “O espelho tem duas faces”, dirigido e atuado por Barbra Streisand, quando ela dá uma aula a respeito do amor romântico. Veja o vídeo abaixo, com a cena do filme, e tire suas próprias conclusões:


Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH
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*Conferir referência completa do livro na página de Indicação de Livros do blog.
Referências das imagens:
Figura 1: http://artodyssey1.blogspot.pt/2014/02/david-renshaw.html
Figura 2: http://www.flaviorossi.com.br/?gallery=originais-a-venda

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