quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

DAR OU NÃO DAR NO(S) PRIMEIRO(S) ENCONTRO(S) – EIS A QUESTÃO

DAR OU NÃO DAR NO(S) PRIMEIRO(S) ENCONTROS – EIS A QUESTÃO

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A temática da sexualidade dá muito “pano pra manga”, e tentarei abordar esse assunto sob diversos ângulos, iniciando neste texto com a polêmica questão de transar ou não no primeiro encontro.
A vivência da sexualidade é perpassada por muitas vias diferentes, sendo que sua permissão ou seu interdito dependerão, originalmente, de valores atribuídos pela cultura, religião e família. Todas estas vias possuem regras explícitas ou implícitas sobre como homens e mulheres devem se comportar sexualmente. Algumas forças são tão arraigadas e inconscientes, que se tornam verdades absolutas. Como não temos consciência delas acabamos por viver suas influências no nosso cotidiano, sem maiores questionamentos.
Você já pensou sobre como construiu suas principais crenças sobre a sexualidade? De onde vieram os conceitos que você aprendeu? Você está repetindo um péssimo conceito de vivência sexual em função da sua origem? Quais os mitos da sexualidade você ainda cultiva em sua vida?
Os padrões de vivência da sexualidade também se repetem através das gerações familiares e para decidir mudá-los você precisa ter consciência deles, identificá-los em sua vida no momento em que se repetem e escolher seguir por um caminho diferente.
Para escolher se você deseja transar num primeiro encontro, antes você precisa definir o que realmente deseja, para aquele momento e para a sua vida: diversão ou relacionamento.
Quando você deseja apenas diversão, curtir o momento, o tesão que excita seus instintos, transar nos primeiros encontros não é um problema, desde que você não crie expectativas de que se torne uma relação. Por quê? A satisfação dos instintos é algo momentâneo e depois do sexo há um esvaziamento do desejo. Como não há mais nada além deste desejo entre os amantes, ou seja, não há intimidade relacional, aquela relação só dura o tempo do tesão. Com pouca frequência uma relação sexual evolui para uma relação amorosa, mas o contrário sim, uma relação amorosa tende a evoluir para uma relação sexual.
Percebo também que com as mudanças de gênero construídas pós-feminismo a maior liberação da sexualidade feminina promoveu uma confusão nas relações, uma vez que a perspectiva machista continua em vigor. Há um movimento dos homens de desqualificar as mulheres que transam no primeiro encontro: a fantasmagórica fantasia da puta. "Se ela deu pra mim rápido assim, como posso confiar que ela não dará para outro homem? Ela é fácil demais". O contrário quase não acontece, as mulheres não costumam desqualificar os homens que transam no primeiro encontro pois culturalmente, na perspectiva machista, é esperado que o homem seja sexualmente ativo, é um atributo valorizado da masculinidade. E por outro lado, no geral, ainda dentro do machismo, as mulheres buscam mais as relações e as vezes o transar no primeiro encontro acontece como tentativa de conquista ou como um medo da perda caso não o faça.
A cultura pode ser extremamente perversa para homens e mulheres hoje. Para os homens, rejeitar ou não querer transar num primeiro encontro, pode colocar em xeque sua masculinidade. Já ouvi muitos relatos de mulheres que perguntaram para homens que rejeitaram suas investidas sexuais, se eles eram gays, ou seja, o preconceito machista não habita somente a mente do homem, mas da mulher também. Assim, o homem heterossexual é obrigado a desejar e convidar para o sexo qualquer mulher, para provar que não é gay, fugindo do fantasma cultural da homossexualidade.
diversão, relacionamentos, sexualidade, interdito, transar no primeiro encontro,  intimidade, fantasma, puta, homossexualidadePara a mulher, seu pior fantasma cultural é tornar-se puta. E esse fantasma é tão forte que muitas mulheres, solteiras e casadas não vivenciam sua sexualidade individual, nem se entregam a maiores experimentações na relação a dois, tornando-se assexuadas ou medíocres sexualmente.
A postos de suas armaduras culturais, o desencontro amoroso acontece assim como a interdição sexual. Enquanto homens e mulheres fizerem performances sociais, que viram jogos relacionais, haverá esse explícito desencontro. Somente quando bancarmos nossos verdadeiros desejos, enfrentarmos nossos mitos, nossas carências e cuidarmos delas sem medo da solidão, poderemos ser fiéis a nós mesmos e, enfim, atrair o tipo de experiência sexual-relacional que buscamos.
Considerando aqui que transar não significa transar com qualidade, homens e mulheres têm vivido mais livremente a sexualidade, apesar de todos seus fantasmas. Mas estão confusos sobre como construir relações de intimidade. Muitas relações acabam ficando na superficialidade do prazer imediato e não evoluem muito além disso.
Mas se você deseja um relacionamento de longo prazo, o melhor caminho é começar com a construção da intimidade antes de chegar no sexo. Para construir uma relação, para conhecer o outro e se mostrar pro outro, há todo um processo de conversas que gasta tempo, o que difere da nossa perspectiva contemporânea do prazer imediato.
Gosto muito de uma metáfora que aprendi no livro da Sobonfu Somé, “O Espírito da Intimidade – ensinamentos ancestrais africanos sobre relacionamentos”*, que fala do processo de construção da intimidade no relacionamento como sendo uma caminhada na colina. Ela aponta que os ocidentais vão direto para ao topo da colina, e que no topo vivem o amor romântico e a paixão, mas se um relacionamento já está no topo não tem muito para onde evoluir e sua tendência é descer a colina, onde aparecerão os problemas.  Já na cultura africana da autora, cada etapa na subida da montanha é importante, e o relacionamento é gradualmente empurrado para cima, no caso deles com a ajuda da comunidade, com o propósito do espírito e com apoio de rituais**. Então, se o desejo é relacionar-se, deve-se começar da base da colina em direção ao seu topo. Isso me lembra também a metáfora da construção de uma casa, onde é preciso construir um bom alicerce para que a casa se sustente.
diversão, relacionamentos, sexualidade, interdito, transar no primeiro encontro,  intimidade, fantasma, puta, homossexualidadeA intimidade é – ou deveria ser - o alicerce para as relações. Segundo Matthew Kelly, sexo e intimidade não são sinônimos. A intimidade é um processo de revelação mútua, onde cada parceiro revela para o outro seus segredos, suas emoções, inspirações, motivações, angústias, desejos, receios, falhas, sentimentos verdadeiros e mesquinhos, sonhos loucos e maravilhosos. Para que essa revelação aconteça é necessário dar um voto de confiança para o outro e ter a coragem de se arriscar. Mostrar-se para o outro parece muitas vezes ameaçador. Mas sem isso, não é possível construir uma relação saudável. Cada pessoa escolhe correr ou não correr esse risco.
Então, se você está buscando uma relação, invista primeiro na construção dessa intimidade e dê tempo ao tempo para que o sexo chegue em seguida, naturalmente, sem ansiedade. Um costume de culturas nórdicas é convidar seu pretendente para um almoço, um café, ou um jantar. Estes são geralmente ambientes onde é possível conversar mais tranquilamente e conhecer o outro avaliando assim se existe ou não uma conexão que se valha a pena investir. Nós brasileiros temos muito que aprender a esse respeito.

Seja qual for sua busca, diversão ou relacionamento, viva de forma coerente e esteja por inteiro na sua escolha.


Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH
*Conferir a página de Indicações de Livros do Blog.
** Para aprofundar nesses conceitos confira o livro.
*** Imagens deste post foram retiradas do blog http://artodyssey1.blogspot.com.br/, que possui mais obras de vários artistas,  confira o link deles no facebook https://www.facebook.com/artodyssey

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